Mais dois bons albuns portugueses de 2008 (bem diferentes por sinal)

      
Mu – Casa Nostra


Pega-se no didgeridoo australiano e põe-se a marinar com a especiaria da tabla indiana durante sensivelmente um ano.
Depois, junta-se o acordeão bem temperado com os aromas da Europa e para adoçar este prato, barra-se muito bem o cozinhado com as doçuras do violino.
Após mais um ano em vinha d’alhos, acrescentam-se os sabores da viola d’arco, leva-se ao lume e vai-se regando com flauta. osgofone, bilha, ferrinhos, pratos, serrote…
Quando o preparado estiver pronto unta-se muito bem o contrabaixo e vai tudo ao forno em lume brando.
Aproximadamente nove meses a estufar e o resultado está na mesa: um prato rico e melodioso com os sabores do MUndo!!!”.
Estas eram as palavras dos portuenses Mu no seu album de estreia Mundanças de 2005 e que caracterizavam na perfeição a sua enorme mezcla sonora.
       
Três anos depois regressam com este Casa Nostra e o “prato rico e melodioso” continua. Todos os elementos que se destacavam no album de estreia por aqui se mantêm: a mistura de instrumentos diversificados e provenientes de diversas zonas do globo, os condimentos musicais circenses ou a alternância entre temas originais (maioritariamente instrumentais) e a recolha de alguns temas tradicionais europeus (em menor número que no disco anterior, mas igualmente óptimos os temas “Oi Na Gori” da Russia e “Viens Ma Fleur” da Hungria).
          
No entanto, para além de um sentido estético ainda mais apurado, há aqui uma incontornável novidade: a presença de Helena Madeira, ex-Dazkarieh, a abrilhantar (e de que maneira) com a sua voz os temas “Karpa”, “Miosotis” e “Iara”, impulsionando uma forte aura espiritual e misteriosa no disco, traduzindo-se em alguma da melhor música que por aqui se encontra.
Um único senão: continua a faltar aqui, tal como no 1º disco, algo de típicamente português para completar em definitivo e de forma perfeita esta óptima volta ao Mundo em 13 temas.
    
        
Deolinda – Canção ao Lado

Depois de projectos como Novembro, M-Pex, A Naifa ou Donna Maria, chegou a vez dos Deolinda darem a sua visão muito particular do fado. Liderados pela voz e pela postura irreverente de Ana Bacalhau, os Deolinda são talvez, dos nomes referenciados, quem, em termos melódicos, mais próximo está do fado puro e duro, apesar da ausência da guitarra portuguesa, marcando presença o contrabaixo e as guitarras clássicas. Bastará ouvir a simplicidade dos dois temas iniciais “Mal por Mal” e “Fado Toninho” deste Canção ao Lado (“Mal por Mal” e “Fado Toninho”) para perceber do que estamos a falar.
                
No entanto, apesar dessa semelhança sonora, há aspectos em que este album subverte e se demarca profundamente do fado tradicional. Por um lado, pelo espírito de festa e de alegria contagiante que aqui mora, muito longe de uma certa abordagem fatalista e reaccionária do fado. Por outro, pelo conteúdo das letras, cheias de uma preciosa sátira e crítica social que percorre diversos aspectos, desde as ideias redutoras sobre o fado (“Poxa, mas no Brasil casa de fado não seria mole assim” em “Garçonete da Casa de Fado” ou “precisa de ser solto. Corre o risco de sufoco quem prende o fado na voz e anda ali com aqueles nós a apertarem a garganta” em “O Fado Não é Mau”), até ao enfado do modo de vida tradicional (“Já sou quem tu queres que eu seja: tenho emprego e uma vida normal. Mas quando acordo e não sei quem eu sou, quem me tornei, eu começo a bater mal… O teu bem faz-me tão mal” em “Mal Por Mal”), passando pela análise ao conformismo da sociedade actual (“Agora sim, temos a força toda! Agora sim, há fé neste querer! Agora sim, só vejo gente boa! Vamos em frente e havemos de vencer. – (resposta) Agora não, que me doi a barriga… Agora não, dizem que vai chover…Agora não, que joga o Benfica e eu tenho mais que fazer” no fantástico “Movimento Perpétuo Associativo”).
       
Mas nem só de ambientes festivos é feito este Canção ao Lado. Pelo meio existem temas com um carácter mais lento e intimista, como “Não Sei Falar de Amor”, “Clandestino”, o tema que fecha o album, ou o muito bonito “Lisboa Não é a Cidade Perfeita”, um dos meus temas favoritos do disco.
             
Concluindo, mais uma interessante surpresa nesta profícua primeira metade de 2008, no que à música portuguesa diz respeito.
     
      
(publiquei esta crítica inicialmente em http://artesanatosonororuc.blogspot.com/)
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4 respostas a Mais dois bons albuns portugueses de 2008 (bem diferentes por sinal)

  1. José Maria Pimentel diz:

    Deolinda ainda não ouvi, mas parece ser muito bom…

  2. José Maria Pimentel diz:

    Vai ao Sudoeste e tudo!

  3. José Maria Pimentel diz:

    “Fado toninho”

  4. João Torgal diz:

    E há um anúncio sobre o album a passar na TV. É bom sinal. A ver se começa a haver maior divulgação destes projectos musicais portugueses tão interessantes e com uma identidade muito própria.
    Ainda assim, Zé, tenho um pressentimento que és capaz de gostar mais do album dos Mu

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