Alguma da melhor colheita musical portuguesa do início de 2008

A Naifa – Uma Inocente
 
Inclinação para o Mal 

Depois de 2 albuns aclamadíssimos pela crítica, como o foram Canções Subterrâneas de 2004 e 3 Minutos Antes de a Maré Encher de 2006, que continham pérolas como “Música”, “Metereológica”, “Monotone”, “Señoritas” ou ” A Verdade apanha-se com enganos”, 2008 marca o regresso aos discos d’A Naifa com este Uma Inocente Inclinação para o Mal, que afirma o grupo definitivamente como um dos porta-estandartes da modernização e actualização do fado no período contemporâneo. É aliás esse facto que abre caminho para uma das grandes contradições do disco: se por um lado este pode ser considerado como o registo da banda mais próximo do fado, pela estética e construção das músicas ou pelo peso mais acentuado da guitarra portuguesa de Luís Varatojo, por outro é muito redutor considerar isto como um album de fado, não só porque seria menosprezar o papel fundamental da secção rítmica que subverte a lógica do estilo, em particular o baixo pulsante de João Aguardela, mas também porque não faz sentido delimitar esta obra maior a um só estilo musical. Outra das diferenças deste album em relação aos anteriores é a existência considerável de um elevado leque de temas em registo intimista, como “Na Página seguinte”, “Um Rapaz Mal Desenhado”, “Uma Ligeira Indisposição”ou “Apenas Durmo Mal” (aquele final em loop fica-nos irremediavelmente na memória), onde estão alguns dos melhores momentos musicais do disco e onde a voz de Mitó brilha intensamente.

No plano lírico, ao contrário do que sucedeu com os albuns anteriores, em que deram projecção a um conjunto vasto de novos poetas nacionais, em Uma Inocente Inclinação para o Mal as letras foram todas escritas por Maria Rodrigues Teixeira, que conheceu os elementos da banda após um concerto em Tondela, tendo-se depois estabelecido esta parceria. As letras, aparentemente ingénuas, inocentes e quase sem sentido, escondem um carácter negro, alguma ironia e um tom de sátira social (“vivo do que me dão/ nunca falto às aulas de esgrima/ e todos os dias agrdeço a deus/ esta depressão que me anima” em “Esta depressão que me anima”, por exemplo).

Em suma, A Naifa ao seu 3º album elevou ainda mais a parada, construindo aquele que é, para mim e desde já, um dos grandes discos nacionais de 2008.

 

Nota: Tive o prazer de assistir ao primeiro concerto de apresentação deste album, realizado no Museu dos Trasportes, em Coimbra, dia 3 de Abril. Foi, na minha perspectiva, atendendo às características mais intimistas do novo album e ao facto de se tratar de um espaço pequeno, o sítio ideal para este concerto. Durante pouco mais de uma hora (uma das poucas coisas negativas do espectáculo, o facto de ter sido tão curto) deram um óptimo concerto, com pouca interactividade com o público (quando a música fala por si, isso é quase irrelevante), mas que, contudo, terminou em apoteose com a vibrante versão da “Desfolhada” de Simone de Oliveira.

 

Kumpania Algazarra –

 Kumpania Algazarra

Como resistir, imóvel e indiferente, ao ska de “Skabicine”, ao reggae balcanizado de “Gipsy Reggae”, aos ritmos latinos, quase cubanos, de “Donde la vida va”, à mistura de música dos balcãs com elementos portugueses em “Oh Cidade” ou à ode contagiante a Mary Poppins em “Supercali”?

Depois de terem dado nas vistas no EP Kumpania Algazarra de 2005 e, essencialmente, na colaboração com os também indescritíveis Blasted Mechanism, em “Battle of Tribes” do seu último de originais Sound in Light, chega agora às lojas este primeiro longa-duração de originais da Kumpania Algazarra, também homónimo. Vindos de Sintra, este enorme colectivo, constituído por cerca de 10 elementos e onde predominam instrumentos de sopro como saxofone, clarinete, trombone ou flautas, afirma-se definitivamente neste disco como uma verdadeira banda de música do Mundo, no que essa expressão pode ter de mais verdadeiro, dado que misturam diversos estilos musicais e elementos de diversas culturas provenientes de pontos geográficos completamente distintos e interpretam temas em diversas linguas como português, francês, iglês ou espanhol.

Aqui ficam alguns dos termos que poderão servir para caracterizar na perfeição este projecto: festa, folia, farra, energia, diversão, vibração, frenesim… Para poder comprovar tudo isto de forma ainda mais acentuada só falta ouvi-los naquele que deverá ser, com certeza, o habitat por excelência da banda, ou seja, o palco, seja ele onde for.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a Alguma da melhor colheita musical portuguesa do início de 2008

  1. José Maria Pimentel diz:

    BRUTAL!

    A “Libérez le Monde” é absolutamente viciante…!

    Quando e onde actuam eles?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s