Análise pessoal a mais dois albuns portugueses

 
 
Ronda dos Quatro Caminhos – Sulitânia
 

Já lá vão cerca de 25 anos desde que a Ronda dos Quatro Caminhos iniciou funções. Mais ou menos desde 1984, altura em que lançaram o seu homónimo album de estreia, que este projecto se dedica, de forma persistente, à divulgação e revitalização da cultura tradicional portuguesa e das especificidades musicais das diversas regiões do país. Apesar da longa carreira deste projecto (que já teve diversas formações, restando apenas António Prata da constituição inicial do grupo), a Ronda dos Quatro Caminhos continua actualmente a procurar novos projectos e novos horizontes na sua música, pelo que faz todo o sentido que tenha surgido na segunda metade de 2007 o album Sulitânia.  

Quatro anos depois de Terra de Abrigo, o registo discográfico anterior, que contava na altura com convidados diversificados como a fadista Katia Guerreiro, a orquestra sinfónica de Córdoba ou alguns coros alentejanos, Sulitânia surge inicialmente apenas como um projecto para uma digressão ao vivo. Assim, a convite das autarquias de Évora, Mértola e Idanha-a-Nova, a ideia inicial era a realização de um conjunto de concertos ao vivo que juntasse a Ronda a alguns colectivos tradicionais desses concelhos, nomeadamente o Coro Polifónico Eborae Musica, o Coral Guadiana de Mértola e as Adufeiras de Monsanto. No entanto, depois dessa pequena digressão, ficou clara a importância de que a profunda cumplicidade verificada entre os músicos nesses espctáculos fosse transposta para estúdio, chegando assim a um público mais vasto. O resultado está aí: Sulitânia é um album bastante interessante, que nos dá a conhecer um pouco mais da música tradicional das regiões da Beira Baixa e do Alentejo, combinando-a com alguns elementos de natureza mais erudita, e que tem, entre outros méritos, o facto de manter uma coerência assinalável e uma comunhão importante com o ouvinte ao longo de todo o album, o que não é fácil a partir do momento em que conta com um elevado lote de convidados, o que poderia contribuir, como acontece em muitos casos, para alguma desagregação do album no seu todo. Nota máxima para “Cravo Roxo”, tema resgatado ao album de estreia, e que aqui, nesta nova versão, conta com a colaboração, entre outros, dos principais colectivos intervenientes neste projecto, terminando da melhor maneira o disco.

 

 Tucanas – Maria Café 


 Embora as Tucanas já existam desde 2001, só agora (em 2007, por distribuição paralela, ou em 2008, nas lojas) chega até nós o seu album de estreia Maria Café.

Trata-se de um projecto exclusivamente feminino que, salvo algumas excepções, onde se inclui a presença fundamental do acordeão de Marina Henriques, é constituído quase por inteiro por voz e percussão. Variando entre temas instrumentais, temas cantados em português e outros em tucanês, o dialecto criado especificamente pela banda, é por demais evidente a incursão sonora não só pelos terrenos da tradição portuguesa, mas também na cultura brasileira e, de forma mais acentuada, nos ritmos africanos, onde vão beber uma boa parte da sua inspiração musical. Assim sendo, é natural que os seus concertos ao vivo sejam bastante dinâmicos, havendo uma aposta forte na componente cénica dos espectáculos, e que se crie facilmente uma forte interacção com o público. Destaque, neste disco, para a presença de alguns ilustres convidados como Rui Júnior (toca talking drum em “Mãos de Calor”), Amélia Muge (a contribuir com a sua voz em “Molhar o Pé”) ou o frenético grupo Kumpania Algazarra (que invade o tema “Peruano” com os seus instrumentos de sopro, num dos melhores momentos do disco). Nos momentos em que se aproximam de uma abordagem mais pop não andam, de facto, tal como foi escrito por alguns críticos musicais, muito distantes das Xaile, que lançaram em 2007 o seu album homónimo de estreia, mas a presença forte da percussão e uma maior sensibilidade ligada à música tradicional nas Tucanas colocam, na minha perspectiva, as autoras de Maria Café uns bons furos acima.

Finalizando, embora não se trate de um album que me tenha enchido as medidas, é um disco que, sem sombra de dúvida, vale a pena ouvir, tem alguns temas particularmente interessantes (como “Peruano”, em qualquer uma das versões, mas especialmente com a Kumpania Algazarra, “Molhar o Pé”, “Domingão Niará” ou “Dacanas”) e suscita a curiosidade de as ouvir ao vivo e de perceber de que forma é que a sua música é potenciada nesse formato.

 

(publiquei esta crítica inicialmente em http://artesanatosonororuc.blogspot.com/)

 

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