A “Estragação”

Uma característica curiosa que nos distingue dos outros países industrializados é a nossa constante censura/ reprovação do sucesso dos empresários portugueses (a auto-flagelação do costume). Nos EUA, por exemplo, as pessoas gostam de saber que os empresários obtêm sucesso, pela simples razão que acreditam que um dia há-de chegar a vez deles. Aqui no burgo não é bem assim. As pessoas não só não gostam de histórias e empresários de sucesso, como nem sequer acreditam que um dia possam ser eles (para já não dizer que se tiveram sucesso, “alguma falcatrua hão-de ter feito”). Na verdade, a principal razão prende-se com o conceito de negócio português, que em 80% dos casos se resume a um café. É esta a ideia de um bom negócio para um português. Um café, uma mercearia e, na melhor das hipóteses, um salão de jogos. Nem é assim tão pouco frequente construir uma casa e abrir um café por baixo. Repare-se que o empresário português de maior sucesso limitou-se a construir uma mercearia gigante.

As pessoas que iam passando na Baixa, dia 2 de Março, limitavam-se a fazer comentários do tipo: “Que desperdício!”; “Que brincadeira de mau gosto!”. Note-se que entre as dezenas que faziam este tipo de comentários devia haver certamente aquelas que nunca participaram em acções de solidariedade, ou que a participar devem ter feito sacrifícios incalculáveis, como reunir um saco de serapilheiras e botas remendadas (ou até alguns brinquedos partidos, a pensar nas crianças) para enviar para os refugiados de Moçambique. Num país em que o conceito de solidariedade é, em 80% dos casos, este, não é de estranhar que se passe a vida a apregoar que “não se deixe comida no prato, por causa dos meninos que passam fome em África” (o que para mim faz todo o sentido: é suposto enfiar os restos num envelope e mandar?). Quanto mais olhar para um evento desta dimensão em que não é difícil imaginar que sobrariam (e sobraram) toneladas de alimentos (cebola e tomate) que foram distribuídos pela Casa dos Pobres da Baixa de Coimbra e pelo Banco Alimentar Contra a Fome e pensar nas vantagens. As pessoas esquecem-se que hoje (e felizmente) só passa fome (quase) quem quer, já que há dezenas de Associações (que me lembre, em Coimbra, há pelo menos 3) que alimentam centenas de pessoas carenciadas. Criadas por pessoas que, em vez de se limitarem a juntar trapos e a mandar as crianças comer o que têm no prato, pensaram melhor no assunto.

Pergunto: de um ponto de vista frio e racional, ficaram ou não estas instituições (bem como a população que recolheu o tomate que sobrou intacto, mas que por já não estar embalado em caixotes não pôde seguir para as instituições) a ganhar? A resposta parece-me óbvia. Pelo menos, nenhuma delas se queixou.

De resto, parece-me que o resultado final foi estrondoso…

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8 respostas a A “Estragação”

  1. José Maria Pimentel diz:

    1. Essa teoria, de Max Weber, e com a qual concordo plenamente, tem um âmbito mais vasto. Mais precisamente, refere-se aos países católicos do sul da Europa. Mas sim, reconheço que Portugal talvez ganhe a taça!

    2. Os milhões do Belmiro não vêm só (longe disso) do negócio do retalho (a “mercearia gigante”).

    3.Quanto ao resultado final, devo dizer que tenho uma certa pena dos intervenientes, pois os tomates eram pouco maduros (como aliás se percebe pelo tom alaranjado – por oposição ao usual vermelho – dos ditos). não devendo, por isso, ter sido muito agradável apanhar com uns quantos…

    4. Será que em Pamplona também se ouve: “Que desperdício”?

  2. Não sei que iniciativa foi essa, mas subscrevo o que dizes no primeiro parágrafo! Eu com a minha loja (e estou longe de ser uma “empresária de sucesso” eheh) já experienciei isso… quando contacto com americanos (ou até outros europeus), dão-me os parabéns pelas coisas que faço, enviam-me mails a avisar quando fazem referências ao meu trabalho nos blogs deles, parecem ficar genuinamente contentes quando alguém atinge um certo marco em vendas ou em popularidade na comunidade em que todos vendemos e deixam-me comentários a dizê-lo, etc… e muitas vezes mencionam isso que dizes, o esperar que um dia também eles estejam assim a ter sucesso e reconhecimento. Já os portugueses com que falo, parecem até achar suspeito que tal coisa dê dinheiro, que se possa ter um negócio assim pela internet e até perguntam “como descobriste essas coisas?”. Quando tento explicar um bocadinho de como tudo surgiu, já que até parecem ter interesse em poder fazer o mesmo e assim tinham algumas dicas, fazem um ar aborrecido de que “dá muito trabalho”, ou “é muito complicado”. Sim, realmente o melhor é ficar de braços cruzados a dizer mal de quem conseguiu fazer alguma coisa e a lamentarem-se por não estarem na mesma situação 😉 outra coisa é a tendência para acharem que quem tem algum negócio produtivo é porque tem “sorte”, ou falam como se tivesse descoberto por acaso uma mina de ouro, ou assim, quando na verdade há muito trabalho por trás e muitas horas passadas a investir no dito negócio, horas essas em que as ditas pessoas estiveram de papo para o ar! É um contraste entre o empreendedorismo e espírito de iniciativa que tenho visto lá fora e o que os portugueses são, que me impressiona.

  3. Zé Band diz:

    Mas, zé, essa teoria de Peter Sombart (e não de Weber, este apenas a retoma mais tarde) é para explicar o porquê de o socialismo/comunismo não se ter estendido aos EUA. Isto foi no principio do séc. XX. A ideia de meritocracia, do self made man, foi sempre mais forte nos EUA porque, na altura, havia postos de trabalho para dar e vender, daí a ideia de quem fosse pobre era automaticamente catalogado de preguiçoso. Essa ideia de empreendedorismo tem, portanto, um revés. Se não tens 2 chevrolet na garagem é mau sinal. Prova disso são os (pobres) jovens mexicanos emigrantes na califórnia que possuem carrões estacionados…frente à barraca.
    Agora num país onde dinheiro para investir falta, só 30% da população frequenta ou frequentou o ensino universitário (e desses a maior parte não reside no país ou está desempregado) e, por isso, não tem os meios financeiros e técnicos para vingar no mercado parece uma razão mais palpável do que a ideia do eterno “portuga”, sendo que este se tem vindo a alterar profundamente nos últimos 30 anos. Nós somos exemplos disso, já não somos só “tugas”, somos também europeus. Curioso é perceber que somos um país triste, semelhante ao Chile, assim o diz Alain Touraine. Talvez por isso acalme as magoas num consumo que não pode suster: o país está em crise constante e, no entanto, somos o país com mais telemoveis per capita e tambem o que mais gasta dinheiro em roupa, onde os shoppings florescem e a industria estagna, onde a vida a credito sobe de forma preocupante. Em números a crise está a vista, a imagem real parece ser outra.
    Passando ao 25 de abril, a ditadura enraizou nos portugueses uma mentalidade tanto má, como boa – sobretudo no que toca a solidariedade. É um país não habituado à segurança social e é por isso que temos uma economia informal tão grande e, em parte, causa da ineficácia do Estado Providência. Mas se a Previdencia falha, é aqui que entra a solidariedade. Em Portugal, como nos países católicos do Sul, as pessoas podem ainda contar com um sistema informal de segurança: os vizinhos, os parentes, os amigos. Ao passo que, países como a Alemanha, tem de apostar em organizações que promovam visitas ao “doente”, por exemplo. No sul visitar um amigo no hospital é um hábito perfeitamente enraízado, natural, a ideia de ter de haver organizações para tal parece de loucos. As pessoas participam menos, de facto, em instituições de solidariedade mas, garanto-vos, se as mesmas faltassem de um momento para o outro em toda a Europa, é no Norte que as coisas se tornariam caóticas e não nos países católicos do sul.
    Quanto a essa tomatada, um computador e um pouco de imaginação evitavam perfeitamente toneladas do vegetal deitado fora. Em ultima análise, isso é sempre um desperdicio. “Quem moraliza é, geralmente, um hipócrita”, já o dizia Oscar Wilde, e certamente que podes catalogar os passeantes na baixa desse modo. Nevertheless, isso não invalida a razão no que dizem.
    E sim, zé, em Pamplona, como em todo o lado há sempre vozes discordantes e, já que estamos a falar de tradições, acabem também com essa ppalhaçada sangrenta das touradas. Tenho dito.

  4. António P. Neto diz:

    Fico contente por este texto ter suscitado este interessante debate. Quando escrevi as primeiras linhas, lembrei-me de ter estudado em Economia Política (feita com esse master of economics que é o A. Nunes) uma tese qualquer que relacionava o catolicismo e o protestantismo com o empreendorismo (ou com a falta dele). Mas como já não me lembrava do autor (e como não me apeteceu investigar) não o mencionei aqui.

    Antes de mais, deixem-me explicar que evento foi este: uma empresa bem conhecida no mercado português – a Guloso – quis recriar uma tomatina semelhante à de Buñol (é aqui que se realiza, não em Pamplona) para publicitar um produto seu, que é, nada mais, do que um concentrado de tomate e cebola (daí as cebolas). Para isso, adquiriu toneladas de tomate e cebola. Montaram-se “barricadas” dos dois vegetais, havendo, então, tomate e cebola para lançar e outro que servia de “cerca” (sacos de cebola e caixas de tomate, que sobraram intactas). Ao contrário do que diz o Bandeirinha, seria má ideia recriar a cena artificialmente, por três motivos: 1) Publicidade criada em computador não cria emprego (e ninguém consegue imaginar a quantidade de gente que trabalha no meio); 2) É visualmente mais pobre; 3) Neste caso concreto, não garantiria as toneladas de alimentos que garantiu a instituições de solidariedade. Parece-me uma situação “win-win”; o resto é moralismo bafiento.

    Por outro lado, acabar com eventos como a Tomatina de Buñol (totalmente inofensivos – o mesmo já não se pode dizer da “palhaçada sangrenta das touradas”) é apenas mais um passo em direcção à sociedade ASAE, cinzenta e asséptica. Nem há comparação possível. De um lado há apenas o exercício de um direito real (neste caso, dos proprietários do tomate que é gasto), do outro há violação inequívoca de direitos dos animais, que não são justificáveis pelo simples facto de serem uma tradição constituída. Pode-se argumentar: “se os animais não têm deveres, também não têm direitos”. Errado. Um cidadão mentecapto ou um recém nascido não têm deveres, e têm direitos. Um feto a partir das 12 semanas de gravidez não tem deveres, mas tem direitos. Quanto ao argumento da tradição, acho que é assunto encerrado, já que este esgota facilmente a sua força, bastando mencionar um ou dois casos de tradições que, por constituirem uma violação clara de direitos fundamentais, tiveram que ser erradicadas. Lembremo-nos da “defesa da honra”.

    A questão fundamental (peço desculpa por fugir ao assunto principal do post) é esta: ou se acredita que os animais têm direitos fundamentais ou não se acredita. Optar pela segunda via é apenas contribuir para a perpetuação de situações de brutalidade/ crueldade extremas sobre estes.

  5. Foi eu que escrevi o comentário assinado pelo bandeirão. Foi um texto do contra, escrito em cima do joelho para reavivar uma boa discussão entre dois teimosos, à la mesa de café… parece que a coisa não pegou. Quiçá, o seu band subscreveria o dito! (O texto não é a minha opinião, ou antes, até o poderia ser, mas não o aplicaria a uma tomatada, para mais uma soft e pontual como esta.)
    Volta Band!***

  6. Já agora Weber não “retoma” Sombart, pelo menos que eu saiba, mas não é difícil fazer uma “ponte”. Foi um golpe sujo!

  7. José Maria Pimentel diz:

    Eu sabia que não tinha sido o “Zé Band”, visto o mail dele, que eu soubesse, não ser “zeband@hotmail.com@!

    Mas não desconfiava de ti, meu caro! =P

    Anyway, o “estilo” de escrita (leia-se, a formatação atabalhoada do texto) está idêntico!

  8. Pedro Vaz diz:

    Os principais responsáveis pela falta de empreendorismo em Portugal são os Sr. Doutores Juristas.
    As pessoas não vivem numa escravatura assalariada por preguiça.

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