Terrivelmente hilariante

A nova série da RTP: “O Dia do Regicídio” .

Vi hoje parte de um episódio e posso dizer que substitui bem o Gato Fedorento no horário nobre.

Distendi os músculos faciais a primeira fez ao vislumbrar a barba de uma das personagens. A dita tinha nitidamente o aspecto de ter sido roubada do fato de Carnaval do filho (de tal modo se notava que era falsa).

A cena do regicídio propriamente dito é um hino ao desperdício. A suposta cena chave de toda a serie resume-se a algo que mais parece uma gravação amadora de um transeunte. Não há qualquer aproveitamento do som (ou ausência dele, por contraste) como potenciador da imagem.

Por seu lado, os actores, salvo honrosas excepções, parecem ter sido recrutados no café da esquina.

Destaco duas cenas paradigmáticas:

A primeira consiste num paradoxal telefonema. O telefone, do lado de cá, consegue passar por duas mãos, sem que nenhum dos interlocutores profira uma única sílaba! Aparentemente, mesmo sem réplica deste lado, o remetente da chamada foi capaz de perceber quem o escutava e quando o escutava e, ainda, transmitir a mensagem. Poderes extra-sensoriais, calculo!

A segunda é o clímax. D. Maria Pia (mãe de D. Carlos), seguindo o exemplo do neto (D.Manuel II), pede uma arma a um oficial, proferindo para o efeito a seguinte frase, digna de uma criançola:

-“Eu também quero uma pistola!”

Foi aqui que o risível se tornou constrangedor…

P.S. Se é possível fazer um excelente filme como “O Mistério da Estrada de Sintra”, como é que se continua a fazer disto?

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6 respostas a Terrivelmente hilariante

  1. Pedro M. diz:

    Depois de ter lido os artigos e alguns livros sobre o assunto, para além do interesse que o insólito suscita, eu fiquei extretamente interessado em acompanhar esta pequena série. Ao ponto de, mobilizando o veterano aparelho vídeo, de a gravar.

    Pois, inutilidade. Eu não vou sequer referir a fraqueza da fotografia (porque não se faz como numa série a sério, se investe em lentes de qualidade e temos uma profundidade de campo mínima que centra toda a atenção na personagem e não em fundos prefeitamente focados). Ou falar no abuso de planos gerais, sem centrar quase nunca o rosto das personagens, o que dá um tom frio à narrativa. Também não vou falar num rei que, tirando a parecença física, se mostra um amante e pouco mais. Do amor às artes, ao mar, pouco se vê. Da cultura, quiçá o francês de emigrante (“moooun fisse”). Ou do príncipe real que, tanto ama o pai, tanto o respeito, tanto prometeu protegê-lo, que quando lhe fala ora o goza, ora lhe vira as costas. Admito que o actor seja fraco (eu já o vi em outros filmes e séries e posso confirmá-lo), mas pedia-se bom senso ao realizador para perceber que um príncipe tem boa educação.

    A cena do regicídio é triste. Depois de 150 planos de filmagem, custa a crer que tenham sido usados os melhores. Caso contrário, o realizador nem o dramatismo de uma cena como aquelas sabe captar. A cena, por pior que seja feita, é impressionante. Mas, com esta série, não passa disso. A série perde 5 minutos com o acidente do comboio, até com a subtil alusão ao amor de D. Luís Filipe à fotografia, mas depois esquece cenas essenciais para caracterizar o rei como o não pedir carros e mandar baixar a capota do landau… e a barba do Buíça é triste. Porque o actor até é dos menos maus.

    Pedro

  2. José Maria Pimentel diz:

    A cena está tão má que, estou convencido, passa despercebida a um “visionador” mais distraído.

    Aproveito o facto de teres comentado para tirar uma dúvida: Por mais reduzido que seja o orçamento (e na RTP não será assim tão baixo) não é possível fazer algo melhorzinho?

    P.S. A barba do Buiça é fabulosa!!

  3. Joana diz:

    vi no outro dia um episódio e dei por mim a pensar exactamente o mesmo: “como é que conseguem fazer uma coisa tão má?”…
    é tudo, ou pelo menos quase tudo, indescritível de tão mau… é impossível começar porque seria impossível acabar.
    sou daquelas pessoas que quando assiste a este tipo de espectáculo sente um certo apelo do comando para mudar de canal. é sempre bom dizer: “eu comecei realmente a ver, mas era tão mau que não aguentei”. neste caso achei inconcebível tanta asneira junta e vi o episódio.
    não entendo como é que se podem fazer coisas destas e muito menos como é que pessoas são pagas.
    fiquei assustada sobretudo com o argumento, as interpretações e a imagem.
    o pior é sem dúvida a barba.

    lado positivo: dará origem aos melhores tesourinhos deprimentes de sempre.

  4. maggy diz:

    acho que toda a gente reparou naquela barba!horrível!

  5. Joka diz:

    Diz que a frase ”Eu também quero uma pistola!” parece digna de uma criançola. É facto histórico que após o Regicídio, D. Maria Pia, devido ao desgosto da morte do filho e do neto, começou a mostrar sinais de demência mental. Acho que o realizador quis fazer alusão à demência e colocou essa frase na boca da Rainha-viúva, mostrando-a como uma figura desamparada e tolinha. E agora, ainda acha a frase digna de uma criançola ou digna de uma mãe e avó louca? Continua a achar a situação hilarante ou pateticamente dramática?

  6. José Maria Pimentel diz:

    Continuo, claro. A frase está, em primeiro lugar, descontextualizada, e, em segundo, é, para dizer o menos, prematura, visto que as mortes do marido e do filho tinham acabado de ocorrer. Demência rápida, no mínimo.

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