As potências mediáticas

Julho 14, 2008 by José Maria Pimentel

Um dos fenómenos mais curiosos da Geopolítica - e cujo crescimento é, em grande parte, fruto das novas tecnologias - é a a entrada de um novo factor na equação de definição de Potência. Se no passado o debate se colocava entre o poder económico e politico (ou até social), hoje qualquer pessoa identifica, inconscientemente, os países mais poderosos com aqueles que mais frequentemente vê no telejornal ou nos jornais.

O primeiro e mais duradouro exemplo deste efeito - ainda em escala reduzida - foi Cuba, cujo mediatismo, qual número de magia, fazia esquecer os inúmeros problemas económico-sociais da ilha.

Actualmente, os dois exemplos paradigmáticos são o Irão e a Venezuela. O primeiro - um país cuja riqueza advém unicamente dos recursos naturais abundantes - apresenta uma das sociedades mais primárias do mundo e é liderado por uma personagem indescritível (gozada pelos próprios conterrâneos, o que, estando em causa o Irão, é dizer muito). Já a Venezuela, tem como ícone (é na verdade o que ele é, em sentido lato) um presidente que dispara em todas as direcções, numa desesperada tentativa de se agigantar em relação aos vizinhos sul-americanos e, pasme-se, aos EUA (que, não fora o petróleo e o gás, não lhe ligava “peva”). Um dos países com que Chavez se travou de razões recentemente foi a Colômbia. Evidentemente que a “birra” não durou muito, pois estes senhores têm um dos maiores exércitos da América do Sul e Chavez é pespineta mas está longe de ser parvo. A estucada final foi a recente libertação de Ingrid Betancourt, para a qual o sempre tão solícito presidente venezuelano contribuiu zero, ficando - em bom português - a ver navios.

Prioridades…

Julho 13, 2008 by José Maria Pimentel

Os EUA “pincham” de júbilo, impulsionados pelo súbito “amansamento” da Coreia do Norte. Tudo óptimo, já não são ameaça! E o facto de continuarem a ser um dos regimes mais totalitários e repressivos do Mundo, interessa? Não, é irrelevante, é difícil de contrariar e, em ultimo caso, “é lá com eles”. O que interessa é que não nos chateiem.

A grande prioridade é, agora, o Irão. Um povo liderado por uma grande “persa”, que se diverte a preparar ameaças a americanos e israelitas, temperadas com fotografias modificadas no Photoshop, para no fim, qual criançola inconsequente, dizer que as experiências nucleares não têm propósitos bélicos.

Ou muito me engano ou esta estratégia iraniana terá pouco futuro. É mais um espasmo final do que um grito do Ipiranga. Para além disso, os apoios na região escasseiam e são pouco poderosos. Os próprios muçulmanos - de maioria sunita - não vêm com grandes olhos apoiar os chiitas iranianos.

“21 Gramas” - brilhante filme

Julho 11, 2008 by João Torgal

Apesar de 21 gramas ser um filme de 2003, só agora tive o grande prazer de o poder ver. Trata-se de uma obra realizada por Alejandro Gonzalez Iñarritu (responsável pelo também fabuloso Babel e por Amor Cão, que ainda não vi) e que conta, nos principais papéis, com a interpretação brilhante de Sean Penn (para mim, um dos mais extraordinários actores de Hollywood), Benicio del Toro e Naomi Watts.

Trata-se de mais um filme mosaico, em que os destinos de 3 personagens  (1 professor à beira da morte, uma jovem mãe com um passado de toxicodependência e 1 ex-condenado reabilitado) se encontram em resultado de um brutal acidente. Longe de seguir uma sequência temporal perfeita, a acção progride recorrendo a flashback’s constantes, como um puzzle em que de forma dispersa se vão colocando as peças, permitindo que haja um maior envolvimento da nossa parte com as personagens e com o seu profundo drama humano

Quanto pesa a vida? É esta a dúvida existencialista que percorre todo o filme e que nos mostra de forma chocante como pode ser tenúe a linha entre a vida e a morte. Por outro lado, Iñarritu explora muito, através da personagem Jack Jordan (interpretada por Benicio del Toro) , a temática da religião, mostrando as suas fraquezas e a sua falência na resposta às trágicas adversidades da vida humana. No entanto, apesar de ser um filme bastante duro e pesado, há também lugar para um certo espírito positivo, nomeadamente através da expressão do amor, da fraternidade, do perdão ou da redenção por parte das personagens.

No fundo, 21 gramas é um filme que é tão denso e perturbador, como magnífico e fascinante. Daqueles que nos emocionam fortemente e nos fazem ficar dias a pensar na sua impressionante mensagem. Uma obra-prima.

P.S. A acompanhar o filme está, tal como em Babel, a extraordinária e muito envolvente banda-sonora de Gustavo Santaolalla, um dos grandes compositores cinematográficos da actualidade

Que excitação! II

Julho 11, 2008 by António P. Neto

“Ladies and Gentleman, I give you… The iPhone!”

Que excitação!

Julho 11, 2008 by Miguel Pessoa Vaz

… “it’s also a hard to use cellphone”!

Pura Magia

Julho 7, 2008 by António P. Neto

Caso prático retirado de uma frequência da cadeira de Direito Romano, leccionada na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra:

“III. Considere a seguinte hipótese:

No dia 9 de Fevereiro de 80 a. C., Titius, paterfamilias romano, vendeu a Sempronius, também paterfamilias, o escravo Bada.

Apesar de estar muito satisfeto com os serviços do escravo, foi com espanto que Sempronius se viu privado dele. De facto, outro paterfamilias, Marcus, conseguira opor-lhe no seguimento da competente acção, uma sentença pela qual foi reconhecida a sua propriedade sobre Bada.

a) Uma vez que, no âmbito da referida acção, Titius até admitira que não tinha qualquer direito sobre o escravo, Sempronius pretende responsabilizá-lo. Como poderá fazê-lo e com que fundamentos?

b) Suponha agora que, para se vingar de Titius, Sempronius matou à paulada as galinhas que aquele tinha numa capoeira. Como poderá Titius reagir e com que fundamentos?”

Final de loucos!

Julho 6, 2008 by José Maria Pimentel

P.S. Congratulo o nosso “espanhol oficial”, João Torgal (dos Torgais da Andaluzia. Ou será da catalunha?)

Orais na FDUC

Julho 6, 2008 by António P. Neto

Um relato curioso daquilo que infelizmente se pode passar - e que se passa - nas orais da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Lembra-nos que enquanto não se alterar o paradigma vigente (”até ao final do secundário a culpa das coisas correrem mal é sempre dos professores, nunca dos alunos, e no ensino superior é sempre dos alunos, nunca dos professores (ou Exmos. Srs. Profs. Drs.))” não se separam os alunos promissores dos que não trabalham, nem os professores incompetentes (que em muitos casos relegam, flagrantemente, a docência para… 4º plano) dos que realmente se dedicam ao ensino, nas universidades. Por outro lado, o estatuto de divindade que estes títulos académicos parecem conceder é algo de verdadeiramente anacrónico. Fica o excerto:

“(…) Lembro-me do tempo em que trabalhava na faculdade e fazia parte do júri das orais e da reputação de arrogante e insensível que ganhei à custa disso.

Como devem imaginar (eu imagino, pois lembro-me bem do que sentia quando estava do lado de lá), quando se faz uma oral num sítio como a FDUC, a última coisa que queremos ver/ouvir é a pessoa que está no júri começar a rir quando se erra uma pergunta (bem, há que ser preciso, não era só errar, tal seria um eufemismo, a frase correcta é “quando se erra uma pergunta e se diz um tremendo disparate”). Pois, eu sou desse tipo de pessoas… acreditem que bem me esforçava por evitar, mas a minha mente humorística é mesmo retorcida (ou nem tanto. Será que alguém pode ficar indiferente à seguinte sequência pergunta/resposta: “onde podemos encontrar o capital social de uma sociedade comercial? Na Caixa Geral de Depósitos!”). O pior era a injustiça (na minha perspectiva) de os alunos pensarem que eu estava a gozar com a desgraça alheia.. quando simplesmente tenho uma vontade incontrolável de rir. O cúmulo da ironia (algo também frequente nos dias que correm…) era um professor com quem eu fazia orais, que era considerado “um querido e um amor” pelas alunas e “um gajo porreiro” pelos alunos e que, na verdade, era o maior cab*** com quem eu fazia orais… mas claro, enquanto o proveito era dele, a fama era toda para mim. Pegando no exemplo anterior, ele partia da resposta e desenvolvia sadicamente: “a sim? em que agência da CGD? Tem a certeza que não pode estar noutro banco? E não se pode transferir o capital social para outro banco? Ora pense lá. Isso não levantaria problemas de concorrência?” .. como já devem estar a imaginar, para ele o aluno já estava chumbado no primeiro disparate! 

E conseguia manter-se sério durante todo o processo de tortura. Não só resistia ao riso do disparate, como, entretanto (isto é, enquanto o aluno desesperava com a sequência de perguntas sem sentido), me segredava entre os dentes: “este tipo vai mas é limpar casas de banho para a CGD, só diz m****!”. Mas não ficava por aqui, depois da tortura, ainda tinha o discurso nutrido do mais requintado companheirismo do mundo, do género: “Vi que estava nervoso, sei que estudou. É um aluno para mais altos voos. Não sei se vai dar para passar, mas fique descansado que ponderarei muito bem o seu esforço”. Claro que, entretanto, ele já tinha escrito “reprovado” na ficha de avaliação! Para a posteridade ficava: “aquele cab*** do gajo que se pôs a rir é que me tramou”. E por aí fora… ”

Compreensivelmente, o autor não revela a sua identidade.

Via A Ilha do Dia Antes. Um obrigado à Mariana, por descobrir estas pérolas.

Resta-me apenas mencionar o que se passou numa, deste ano: o regente da cadeira fala ao telemóvel durante uma oral, pelas 11 da manhã: “(…) 3 quartos? Sim, sim! Marcamos agora para o final da manhã…“. Orais interrompidas até às 14h30. Porque é quase um insulto verificar se sua excelência cumpre com o seu trabalho. Isto é real, passou-se com colegas meus. Felizmente, nunca me calharam destes na rifa.

Dream of Californication

Julho 5, 2008 by António P. Neto

CalifornicationCalifornication, uma das novas apostas da Showtime, vem revolucionar a maneira como se encaram os tabus em televisão. Talvez exagere na quantidade de cenas de sexo. Mas, por incrível que pareça, nunca parece forçado. David Duchovny faz o papel da sua vida, limpando de vez a sua insípida prestação nos detestáveis “X Files”: Hank Moody é um tipo deprimido, por quem sentimos alguma pena, já que é impossível não nos revermos de algum modo na amargura que o perpassa. Incapaz de criar algo novo (descreve-se como escritor, apesar de o enervar o facto de toda a gente se considerar “escritor” em Los Angeles, a cidade onde decorre a série), perturbado por um dos seus best sellers ter acabado num filme popularucho e oco, procura compensar o vazio deixado pelo abandono de que foi alvo pela sua ex-mulher. E obviamente reconquistá-la (acaba aqui a parte telenovela). 

A primeira coisa que me ocorreu quando vi a série foi que poderia muito bem ser um “Sexo e a Cidade” para homens, limpo, no entanto, da futilidade que caracterizava as personagens e, em geral, a primeira. Chegando ao fim da primeira temporada percebemos facilmente que a série é bastante mais do que isso. Apesar de ir beber um bocado à típica novela, está limpa de clichés e frases politicamente correctas: as personagens fumam, bebem e drogam-se, sem que nas entrelinhas se adivinhe uma pretensa mensagem pedagógica. Provavelmente também dizem “f*ck” demasiadas vezes. Tal como o “Sexo e a Cidade”, é uma série feita por adultos para adultos, só que desta vez os adultos fazem asneiras e pagam por elas. Se a série acabasse na primeira temporada, não fugiria a um happy ending, mas, como já está anunciada a segunda, podemos adivinhar que muita água ainda rolará por baixo da ponte. E eu, pelo menos, estarei cá para ver.

Sei que é transmitida em Portugal pela RTP2, mas não faço ideia a que dias e a que horas. Sinceramente, ainda há alguém que acompanhe séries pela televisão?

Omissões

Julho 2, 2008 by António P. Neto

Não sou propriamente espectador assíduo do canal (embora saiba, de fonte segura, que o Miguel assiste às “Tardes da Júlia”), e posso garantir que as minhas acções na Media Capital vão de vento em poupa. Mas há qualquer coisa de estranho na forma como foi transmitida, na RTP 1, a notícia de que o grupo em questão tinha sido alvo de buscas: “O grupo que detém a TVI foi alvo de buscas (…)”. Reparem que nem se fala no nome de grupo, avança-se logo para o facto de a TVI pertencer a um grupo que foi alvo de buscas. Não é que surpreenda alguém, e há exemplos bem piores, mas gostava de saber onde vão parar estes pequenos descuidos, que fazem dos nossos telejornais versões audiovisuais d’ “O Crime”.