Nunca sei bem que expectativas levar para um festival de Verão. Como em tudo, se as levo demasiado elevadas é quase certo que me vou desiludir. É por isso que vou sempre reticente. Vou tentar deixar aqui uma crítica alargada do que foi a minha experiência pessoal neste surpreendente festival.

Cartaz 2008
O Cartaz
Imagine um festival em que os músicos chegam da mesma maneira que o resto das pessoas, acampam no meio delas e metem conversa com elas. Pois bem, isto é o Andanças. Não se surpreenda se ao andar pelo recinto for abordado por várias pessoas que identifica como pertencendo a bandas que actuam no festival. A ausência de backstage dá uma ideia bem clara do espírito que se vive.
As bandas são do que melhor se faz em Portugal, seguramente. Tendo algumas delas já CD’s lançados (e esgotados) é surpreendente como continuam a viver no meio da total obscuridade. Posso referir-me aos “Uxukalhus”, aos “Pé na Terra”, aos “Monte Lunai”, aos “Mu”, aos “Tor”, aos “Olive Tree Dance” etc. Provavelmente nunca ouviu falar em nenhuma delas. Eu também não teria, certamente, se não fossem os posts do João Torgal aqui n’ A Mesa (ele poderá contar-vos como foi fácil conseguir entrevistas).
Não há muito mais a dizer. São essencialmente bandas folk, jovens e de muita qualidade, na maior parte dos casos. Ninguém entende como não passam nas rádios. Não se trata de nada experimental ou de difícil ouvido. A maior parte é, até, bastante dançável (sendo esse um objectivo das bandas que vão ao Andanças, já que para alem da música popular também se pretende divulgar a dança).
Os Concertos
Imagine agora que aterrou no meio de um baile popular ou numa festa de aldeia (ranchos e grupos do género de todo o mundo actuam no Andanças), em que tem à sua volta dezenas de pessoas impecavelmente coreografadas a dançar. À tarde aprendem-se as danças, à noite dança-se. As bandas explicam com toda a paciência como dançar, as pessoas aprendem e aplicam os conhecimentos adquiridos à noite. É a melhor maneira de conhecer gente nova, caso tenha coragem (nascido não com um, mas com dois pés de chumbo, achei por bem deixar para quem sabe). É isto que torna os concertos tão diferentes neste festival (aparte da enorme empatia que as bandas criam com a audiência, em cima e fora do palco – algumas delas acabam os concertos a tocar no meio da público; o que não constitui nenhum problema, já que também não existem seguranças, nem grades): o espírito contagiante com que se assiste aos concertos: quem vê de fora não vê uma multidão esfusiante, mas um grupo coordenado de dezenas de pessoas a divertir-se. Diferente de tudo o que vi até hoje.
As Instalações
Não se compreende como é que num festival que tem, provavelmente, 1/3 do orçamento que a maior parte dos grandes festivais de Verão têm (basta dizer que é organizado por uma Associação cultural sem fins lucrativos) as condições são tão… boas. Existem dezenas de casas de banho montadas no recinto (casas de banho a sério, não casas de banho de plástico), bem como chuveiros (quentes e frios) e torneiras com água proveniente da Serra, sempre fresca e de óptimo sabor. Existem dois campings: um calmo, em que o barulho cessa às 21h, e um geral, em que o barulho cessa às 24h. Primeiro ponto negativo: tratando-se de um festival de Verão, não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h. Por outras palavras, é proibido qualquer ajuntamento a partir destas horas no interior do parque de campismo. No entanto, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Sudoeste, há espaço de sobra para acampar. Sobre as refeições falo no ponto a seguir.
As Refeições
Não me compete a mim julgar o destino que a Associação Pedexumbo dá aos lucros do festival. Devo dizer, no entanto, que a maior parte dos produtos e serviços comercializados no interior do recinto estão a preços perfeitamente razoáveis. Na maior parte dos casos estão aos mesmos preços a que se encontram fora do festival. As refeições na cantina são bem servidas e completas, e custam 5€. Exactamente o mesmo que se paga nos restaurantes fora do recinto, que não incluem sopa e fruta. Tendo como termo de comparação as cantinas universitárias de Coimbra, parecem caras. Mas se compararmos com os preços praticados noutras cantinas (ex: Lisboa) os preços correspondem à realidade. E esta é uma excelente oportunidade de fazer refeições equilibradas, havendo até um menu vegetariano.
Existem, também, mais 3 restaurantes dentro e ao pé do recinto: um vegetariano e outros dois de fast food. Igualmente a preços razoáveis, à excepção do vegetariano, que pode sair caro, caso se pretenda sobremesa ou sumos naturais.
A organização montou, ainda um mini-mercado na zona do parque de campismo. Ideal para tomar o pequeno-almoço a preços razoáveis (por 2€ compramos pão, queijo, fiambre e iogurtes, por exemplo).
Como se pode concluir facilmente, não há falta de alternativas para comer no festival.
O Conceito
No andanças a ecologia é levada a sério. E não se trata apenas de incluir pontos de separação de lixo em todo o festival. Tudo é pensado para gastar e sujar o mínimo. Não há copos, nem pratos, nem talheres de plástico (política de “descartáveis zero”). No início do festival compra-se (ou aluga-se, solução pensada para os mais frugais) uma caneca de lata que é onde são servidas todas as bebidas que se consomem no festival. Isto significa que não há toneladas de copos de plástico no chão, nem para reciclar. Caso se traga prato e talheres de casa usufruímos, ainda, de um desconto de 0,50€ em cada refeição. Quem não traz é obrigado a alugar, sendo devolvida no fim a caução.

© Manan Xuxudi
A única maneira que existe de aceder a um computador é pedalando numa bicicleta (parece óbvio que isto já é um bocado exagerado – nem área de imprensa existe). Há, no entanto, uma zona para carregar telemóveis e dezenas de tomadas para outras necessidades, já que os headquarters do festival são numa escola.
Escusado será dizer que este cuidado torna as pessoas conscientes, razão pela qual é raro o lixo que se vê no chão. Esta estratégia merece, definitivamente, um aplauso.
As Actividades
O Andanças é um acontecimento surpreendente, onde se encontra todo o tipo de pessoas: músicos, construtores de instrumentos, contadores de histórias, pintores, etc. As actividades estão a cargo deles. Há fogueiras e histórias, workshops de construção de instrumentos, aulas de instrumentos, actividades de pintura, etc. Como se já não bastasse, o festival localiza-se ao pé da Serra. O rio que a atravessa vai formando pequenos lagos no seu leito, que na região são denominados como “poços”. Enchem facilmente, mas há vários, basta procurar um que esteja mais vazio. A água é gelada, mas sabe bem, tendo em conta o calor que se faz sentir. Existem ainda as piscinas do Pisão, e autocarros para transportar as pessoas para lá. Fazem-se ainda caminhadas pela Serra. Enfim, há tanta coisa para fazer que é impossível estar parado. Note-se que estas actividades servem, por exemplo, para quem não está muito interessado em dançar, já que é à tarde que se aprende. Para relaxar, pode fazer yoga, terapias do abraço e do riso ou o que bem lhe apetecer, já que tudo é mais ou menos tolerado e permitido (garantimos que não é difícil arranjar quem o acompanhe, seja em que actividade for).
© Blue.Trek
As Pessoas
O Andanças é, para alem de um festival multicultural, um festival em que se juntam muitas pessoas diferentes (desde banqueiros a artistas de rua). Mas há uma coisa notória: todas estão lá para o mesmo, que é… diversão. Não há pessoas hostis; há apenas uma dose de tranquilidade que parece afectar todas as pessoas que estão no festival. Durante uma semana tudo é feito com boa disposição, disponibilidade e vontade de ajudar. Mesmo que não se ganhe nada com isso. No entanto, é óbvio que as coisas funcionam e correm melhor. Durante uma semana conhecemos dezenas de pessoas, e essas dezenas de pessoas conhecem-nos a nós. Conversa-se sobre música, sobre o festival, sobre política (é óbvio que o Berloque tinha que aproveitar a ocasião para alguma propaganda), sobre o que era antes e o que é hoje.
Se se procura paz, este é o sítio certo. Não se espante se ao caminhar pelo recinto receber abraços de pessoas desconhecidas (a desvantagem é que tanto pode calhar uma mulher sensual como um obeso de higiene duvidosa).
©Ruddrud
Pontos Negativos
Não há muito a apontar, honestamente. A única coisa que talvez pudesse ser revista é a obsessão de controlo dos seguranças (quase que arrancam as pulseiras à entrada e não permitem o mínimo ruído fora de horas, nem que se esteja a 500m das tendas. Num festival em que dezenas de pessoas andam com instrumentos atrás, isto é difícil de cumprir, ainda mais porque estes parecem ser os únicos que se importam). Pessoas que foram nas edições anteriores dizem que este ano o controlo foi exagerado e, na minha opinião, desproporcionado, já que não se parece justificar. A organização deve ter as suas razões, penso eu.
A minha única preocupação com este festival é que se torne um Sudoeste, com o pior que isto trás: multidões, confusão, filas e problemas. Enquanto se mantiver como está, é sem dúvida uma experiência a repetir.