Arquivos para a Categoria ‘Uncategorized’

“Isso Não Era Para Contares, Pá!”

Agosto 20, 2008

“(…) O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, usou ontem à noite o exemplo de Portugal para salientar o crescimento económico da Venezuela, referindo que o primeiro-ministro José Sócrates lhe disse recentemente que a economia portuguesa “está estancada”…”

in Público

Um Foco de Lucidez

Agosto 19, 2008

Jardim tem toda a razão. Um novo partido político centrado na sua pessoa seria uma coisa fantástica para o país. E melhor ainda para o PSD, que assim se livraria dos seus, hum… habitués, popularuchos e demagogos e se tornaria, finalmente, um partido quase credível. No estado em que está a oposição não seria o ideal, mas seria o possível, pelo menos para tirar a maioria absoluta a Sócrates que, com o PSD no estado em que está, dorme, certamente, como um bebé…

Festivais de Verão - Andanças 2008

Agosto 15, 2008

 

Nunca sei bem que expectativas levar para um festival de Verão. Como em tudo, se as levo demasiado elevadas é quase certo que me vou desiludir. É por isso que vou sempre reticente. Vou tentar deixar aqui uma crítica alargada do que foi a minha experiência pessoal neste surpreendente festival.

 

 

Cartaz 2008

Cartaz 2008

 

 

 

O Cartaz

Imagine um festival em que os músicos chegam da mesma maneira que o resto das pessoas, acampam no meio delas e metem conversa com elas. Pois bem, isto é o Andanças. Não se surpreenda se ao andar pelo recinto for abordado por várias pessoas que identifica como pertencendo a bandas que actuam no festival. A ausência de backstage dá uma ideia bem clara do espírito que se vive.

As bandas são do que melhor se faz em Portugal, seguramente. Tendo algumas delas já CD’s lançados (e esgotados) é surpreendente como continuam a viver no meio da total obscuridade. Posso referir-me aos “Uxukalhus”, aos “Pé na Terra”, aos “Monte Lunai”, aos “Mu”, aos “Tor”, aos “Olive Tree Dance” etc. Provavelmente nunca ouviu falar em nenhuma delas. Eu também não teria, certamente, se não fossem os posts do João Torgal aqui n’ A Mesa (ele poderá contar-vos como foi fácil conseguir entrevistas).

Não há muito mais a dizer. São essencialmente bandas folk, jovens e de muita qualidade, na maior parte dos casos. Ninguém entende como não passam nas rádios. Não se trata de nada experimental ou de difícil ouvido. A maior parte é, até, bastante dançável (sendo esse um objectivo das bandas que vão ao Andanças, já que para alem da música popular também se pretende divulgar a dança).

 

Os Concertos

Imagine agora que aterrou no meio de um baile popular ou numa festa de aldeia (ranchos e grupos do género de todo o mundo actuam no Andanças), em que tem à sua volta dezenas de pessoas impecavelmente coreografadas a dançar. À tarde aprendem-se as danças, à noite dança-se. As bandas explicam com toda a paciência como dançar, as pessoas aprendem e aplicam os conhecimentos adquiridos à noite. É a melhor maneira de conhecer gente nova, caso tenha coragem (nascido não com um, mas com dois pés de chumbo, achei por bem deixar para quem sabe). É isto que torna os concertos tão diferentes neste festival (aparte da enorme empatia que as bandas criam com a audiência, em cima e fora do palco – algumas delas acabam os concertos a tocar no meio da público; o que não constitui nenhum problema, já que também não existem seguranças, nem grades): o espírito contagiante com que se assiste aos concertos: quem vê de fora não vê uma multidão esfusiante, mas um grupo coordenado de dezenas de pessoas a divertir-se. Diferente de tudo o que vi até hoje.

 

As Instalações

Não se compreende como é que num festival que tem, provavelmente, 1/3 do orçamento que a maior parte dos grandes festivais de Verão têm (basta dizer que é organizado por uma Associação cultural sem fins lucrativos) as condições são tão… boas. Existem dezenas de casas de banho montadas no recinto (casas de banho a sério, não casas de banho de plástico), bem como chuveiros (quentes e frios) e torneiras com água proveniente da Serra, sempre fresca e de óptimo sabor. Existem dois campings: um calmo, em que o barulho cessa às 21h, e um geral, em que o barulho cessa às 24h. Primeiro ponto negativo: tratando-se de um festival de Verão, não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h. Por outras palavras, é proibido qualquer ajuntamento a partir destas horas no interior do parque de campismo. No entanto, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Sudoeste, há espaço de sobra para acampar. Sobre as refeições falo no ponto a seguir.

 

As Refeições

Não me compete a mim julgar o destino que a Associação Pedexumbo dá aos lucros do festival. Devo dizer, no entanto, que a maior parte dos produtos e serviços comercializados no interior do recinto estão a preços perfeitamente razoáveis. Na maior parte dos casos estão aos mesmos preços a que se encontram fora do festival. As refeições na cantina são bem servidas e completas, e custam 5€. Exactamente o mesmo que se paga nos restaurantes fora do recinto, que não incluem sopa e fruta. Tendo como termo de comparação as cantinas universitárias de Coimbra, parecem caras. Mas se compararmos com os preços praticados noutras cantinas (ex: Lisboa) os preços correspondem à realidade. E esta é uma excelente oportunidade de fazer refeições equilibradas, havendo até um menu vegetariano.

Existem, também, mais 3 restaurantes dentro e ao pé do recinto: um vegetariano e outros dois de fast food. Igualmente a preços razoáveis, à excepção do vegetariano, que pode sair caro, caso se pretenda sobremesa ou sumos naturais.

A organização montou, ainda um mini-mercado na zona do parque de campismo. Ideal para tomar o pequeno-almoço a preços razoáveis (por 2€ compramos pão, queijo, fiambre e iogurtes, por exemplo).

Como se pode concluir facilmente, não há falta de alternativas para comer no festival.

 

O Conceito

No andanças a ecologia é levada a sério. E não se trata apenas de incluir pontos de separação de lixo em todo o festival. Tudo é pensado para gastar e sujar o mínimo. Não há copos, nem pratos, nem talheres de plástico (política de “descartáveis zero”). No início do festival compra-se (ou aluga-se, solução pensada para os mais frugais) uma caneca de lata que é onde são servidas todas as bebidas que se consomem no festival. Isto significa que não há toneladas de copos de plástico no chão, nem para reciclar. Caso se traga prato e talheres de casa usufruímos, ainda, de um desconto de 0,50€ em cada refeição. Quem não traz é obrigado a alugar, sendo devolvida no fim a caução.

© Manan Xuxudi

A única maneira que existe de aceder a um computador é pedalando numa bicicleta (parece óbvio que isto já é um bocado exagerado – nem área de imprensa existe). Há, no entanto, uma zona para carregar telemóveis e dezenas de tomadas para outras necessidades, já que os headquarters do festival são numa escola.

Escusado será dizer que este cuidado torna as pessoas conscientes, razão pela qual é raro o lixo que se vê no chão. Esta estratégia merece, definitivamente, um aplauso.

 

As Actividades

O Andanças é um acontecimento surpreendente, onde se encontra todo o tipo de pessoas: músicos, construtores de instrumentos, contadores de histórias, pintores, etc. As actividades estão a cargo deles. Há fogueiras e histórias, workshops de construção de instrumentos, aulas de instrumentos, actividades de pintura, etc. Como se já não bastasse, o festival localiza-se ao pé da Serra. O rio que a atravessa vai formando pequenos lagos no seu leito, que na região são denominados como “poços”. Enchem facilmente, mas há vários, basta procurar um que esteja mais vazio. A água é gelada, mas sabe bem, tendo em conta o calor que se faz sentir.  Existem ainda as piscinas do Pisão, e autocarros para transportar as pessoas para lá. Fazem-se ainda caminhadas pela Serra. Enfim, há tanta coisa para fazer que é impossível estar parado. Note-se que estas actividades servem, por exemplo, para quem não está muito interessado em dançar, já que é à tarde que se aprende. Para relaxar, pode fazer yoga, terapias do abraço e do riso ou o que bem lhe apetecer, já que tudo é mais ou menos tolerado e permitido (garantimos que não é difícil arranjar quem o acompanhe, seja em que actividade for).  

 © Blue.Trek 

As Pessoas

O Andanças é, para alem de um festival multicultural, um festival em que se juntam muitas pessoas diferentes (desde banqueiros a artistas de rua). Mas há uma coisa notória: todas estão lá para o mesmo, que é… diversão. Não há pessoas hostis; há apenas uma dose de tranquilidade que parece afectar todas as pessoas que estão no festival. Durante uma semana tudo é feito com boa disposição, disponibilidade e vontade de ajudar. Mesmo que não se ganhe nada com isso. No entanto, é óbvio que as coisas funcionam e correm melhor. Durante uma semana conhecemos dezenas de pessoas, e essas dezenas de pessoas conhecem-nos a nós. Conversa-se sobre música, sobre o festival, sobre política (é óbvio que o Berloque tinha que aproveitar a ocasião para alguma propaganda), sobre o que era antes e o que é hoje.

Se se procura paz, este é o sítio certo. Não se espante se ao caminhar pelo recinto receber abraços de pessoas desconhecidas (a desvantagem é que tanto pode calhar uma mulher sensual como um obeso de higiene duvidosa).

 ©Ruddrud

Pontos Negativos

Não há muito a apontar, honestamente. A única coisa que talvez pudesse ser revista é a obsessão de controlo dos seguranças (quase que arrancam as pulseiras à entrada e não permitem o mínimo ruído fora de horas, nem que se esteja a 500m das tendas. Num festival em que dezenas de pessoas andam com instrumentos atrás, isto é difícil de cumprir, ainda mais porque estes parecem ser os únicos que se importam). Pessoas que foram nas edições anteriores dizem que este ano o controlo foi exagerado e, na minha opinião, desproporcionado, já que não se parece justificar. A organização deve ter as suas razões, penso eu.

 

A minha única preocupação com este festival é que se torne um Sudoeste, com o pior que isto trás: multidões, confusão, filas e problemas. Enquanto se mantiver como está, é sem dúvida uma experiência a repetir.

De Volta

Agosto 15, 2008

Não eu, pelo menos por enquanto. Luís M. Jorge voltou a actualizar o seu blog. Uma boa maneira de compensar a baixa do Filipe N. Vicente. Esperemos que desta vez seja de vez!

On Hiatus

Agosto 3, 2008

Até pelo menos dia 10 de Agosto, dois ilustres membros deste blog (eu e o João Torgal, em serviço) andarão por aqui. Estão todos convidados. Boas férias!

Leitura verdadeiramente obrigatória

Agosto 3, 2008

Recebi o seguinte e-mail, que agora partilho convosco:

*(Esta carta foi direccionada ao banco BES, porém devido à criatividade com que foi redigida, deveria ser direccionada a todas as instituições financeiras.)*
 
 Exmos. Senhores Administradores do BES
 
 Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa
mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. Rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
 
 Funcionaria desta forma: todos os senhores e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os  proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer outro produto adquirido (um pão, um remédio, uns litro de combustível, etc.) o usuário  pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.
 

Que tal?
 
 Pois, ontem saí do BES com a certeza que os senhores concordariam com tais  taxas. Por uma questão de equidade e honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples.
 
 *Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de  embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e qualquer outro serviço. Além disso impõe-se taxas de. Uma ‘taxa de acesso ao pão’, outra ‘taxa por guardar pão quente’ e ainda uma ‘taxa de abertura da padaria’. Tudo com  muita cordialidade e muito profissionalismo, claro. *
 
 Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.
 
 *Financiei um carro, ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os  senhores cobram-me preços de mercado, assim como o padeiro cobra-me o preço de mercado pelo pão. *
 
 *Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri.*
 
 *Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobram-me uma ‘taxa de abertura de crédito’-equivalente àquela hipotética ‘taxa de acesso ao pão’, que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar *
 
 Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, *os senhores cobram-me uma ‘taxa de abertura de conta’. *
 
 *Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa ‘taxa de abertura de conta’ se assemelharia a uma ‘taxa de abertura de padaria’, pois só é possível fazer negócios com o padeiro,  depois de abrir a padaria. *
 
 Antigamente os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como ’Papagaios’. Para gerir o ‘papagaio’, alguns gerentes sem escrúpulos cobravam ‘por fora’, o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco  resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos. Agora, ao contrário de ’por fora’ temos muitos ‘por dentro’.
 
 *Pedi um extracto da minha conta - um único extracto no mês - os senhores  cobram-me uma taxa de 1 EUR. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR ‘para manutenção da conta’ - semelhante àquela ‘taxa de existência da padaria na esquina da rua’. *
 
 *A surpresa não acabou. Descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo.  Semelhante àquela ‘taxa por guardar o pão quente’. *
 
 *Mas os senhores são insaciáveis.*
 
 *A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer.
 
 *Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de v/. Banco. *
 
 *Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?*
 
 Depois de eu pagar as taxas correspondentes talvez os senhores me respondam  informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc., etc., etc*. **e que apesar de lamentarem muito e de nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto pela lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal.* Sei disso, como sei  também que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.
 
 *Sei que são legais, mas também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma. *

Bem Observado

Agosto 2, 2008

Um leitor do Abrupto pergunta-se sobre a utilidade dos postos de informação ao cidadão Infocid, uma praga tecnológica paga com dinheiros públicos totalmente inútil. Aqui em Coimbra havia uma à entrada do IPJ. Já nem sequer funciona, como é óbvio. 

“Como é gasto o nosso dinheiro

Relembro que continua por atribuir o prémio de €50 que será entregue à primeira pessoa que, em qualquer ponto do país, consiga encontrar um único destes quiosques Infocid que funcione como tal. O que se vê na imagem é o “monumento tecnológico” existente no edifício do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, em Lisboa.

(C. Medina Ribeiro)”

in Abrupto

Marinho, The Special One

Julho 28, 2008

Uma sondagem do Diário “As Beiras” (procuro sempre rodear-me de jornais de referência) diz que 80% das pessoas que responderam ao inquérito concordam com as declarações de Marinho Pinto. Eu subscrevo. Até porque vou sabendo de algumas histórias sobre magistrados que confirmam as teses do bastonário.

O problema de Marinho Pinto não são as declarações que profere. É que caem um bocado fora do seu círculo de competências como bastonário da Ordem dos Advogados. A classe profissional que representa tem todo o direito de achar que está a ser mal representada e de se indignar com a verborreia do seu bastonário…

Curioso Acerca da Coreia do Norte?

Julho 22, 2008

Admitamos, é impossível não estar. Ninguém faz ideia do que se passa no interior da Coreia do Norte. Ninguém à excepção, talvez, de alguns jornalistas que se infiltram, esporadicamente, no país. Neste caso nem sequer vão como jornalistas, mas apenas como turistas (supostamente proibidos de filmar o que quer que seja). The Vice Guide to North Korea arrisca-se a ser o documentário mais interessante que vi nestes últimos tempos (disponibilizado online, gratuitamente). O que parece uma viagem à Rússia dos anos 50 é a Coreia do Norte em 2008. Obrigatório ver, aqui.

Novamente, o Porto a brilhar…musicalmente

Julho 21, 2008

 

Pé Na Terra - Pé Na Terra

 

Depois dos conterrâneos Mu e Mandrágora, chegou a vez dos também portuenses Pé na Terra lançarem um óptimo album em 2008. Curiosamente, três albuns bem diferentes: enquanto os Mandrágora levam a tradição até ao jazz e ao rock progressivo e os Mu misturam culturas espalhadas um pouco por todo o Mundo, os Pé na Terra são quem mais próximos estão da música tradicional portuguesa, embora com um cunho muito pessoal.

Falemos já um pouco da sequência mais forte deste registo homónimo de estreia: ao 4º tema do disco surge, com “A Balada do Sino”, a primeira de duas versões de Zeca Afonso (a outra é “Maria Faia” que, apesar de ser um tema tradicional, foi claramente celebrizada pelo Zeca). Depois de um início extremamente lento e bonito, esta versão da “Balada do Sino” ganha nervo sensivelmente a meio, algo que se vai intensificando até ao seu final, terminando da melhor maneira com um excerto de um inflamado discurso do próprio Zeca Afonso de apelo à insurreição (que falta fazem, no mundo globalizado actual, as suas palavras de ordem, o seu sonho e a sua utopia). Essas palavras dão o mote para aquele que é um dos grandes temas que escutei nos últimos tempos: “Sentir”. “Sentir, ser diferente, mudar o som, crescer, explodir, voar, livre sem pensar”. São estas as palavras que percorrem de forma hipnótica todo o tema, acompanhadas por uma lindíssima melodia, onde se destaca esse instrumento para mim tão maravilhoso: a gaita-de-foles. Este tema mostra bem a importância dada pelos Pé na Terra às letras, à palavra, a uma certa estrutura poética que se espalha ao longo de todo o disco. Como tal, não é de estranhar que o album feche precisamente com o poema “Sete”, declamado por dois convidados dos Pé na Terra: Patrícia Miranda e Tiago Meireles (ele próprio autor do poema).

No entanto, nem só de faixas com voz vive este disco. Quase metade do album é instrumental, contendo temas bastante distintos uns dos outros, como se pode verificar escutando, por exemplo, “Valsa Verde”, “Salpicos” e “Passodoble de Vizela”. Esta diversidade só demonstra, em definitivo, que este primeiro longa duração dos Pé na Terra é um trabalho bastante eclético, recheado de ideias diferentes.

Enfim, através deste grande disco, a cidade invicta volta novamente a marcar pontos no panorama musical português de 2008.

 

P.S. Os Pé na Terra venceram a eliminatória nacional do Eurofolk 2008, que se realizou em Coimbra dia 7 de Julho. Como tal, vão representar Portugal na sua edição internacional, a realizar em Málaga no final do mês de Agosto

(publiquei esta crítica inicialmente em http://artesanatosonororuc.blogspot.com/)