Arquivo de Junho, 2009

A paixão “PS” pela educação

Junho 22, 2009

Professores

Depois do livro, o filme: Orgulho e Preconceito

Junho 22, 2009

É sempre cruel ver adaptado ao cinema um livro que se aprecia.

E é ainda pior quando a memória desse livro está ainda bastante fresca, com todos os pormenores presentes na memória. Cena após cena, quase inconscientemente, vamos reparando nas omissões e nas modificações que a adaptação infligiu no argumento original. Inevitavelmente, a nossa opinião e a do realizador em relação aos momentos a omitir, a manter ou, até, a reforçar, não coincide a 100% (“cien por cien“, como diria nuestro hermano Torgal). No fim, sobra sempre um sabor a pouco.

Ainda assim, tentando distanciar-me, diria que este filme é uma adaptação bem conseguida, quatro estrelas.

Um dos factores em que esta produção se destaca – talvez aquele em que mais sobressai – é na escolha dos actores. Elizabeth – Keira Knightley – é, por ventura, mais bonita que a versão do livro, mas a escolha da actriz que faz de Jane – Rosamund Pike – compensa esta lacuna, criando a sensação pretendida. Uma é a beleza by the book, Jane, a outra a beleza advinda de uma personalidade invulgar. O actor escolhido para Darcy está, também, perfeito. Melhor, até, que Colin Farrell (não digo pior actor. Apenas melhor para o papel). Por fim, Mr Collins está irrepreensível e o pai de Elizabeth, Donald Sutherland, está, como tinha dito no post anterior, ainda melhor que na história original. Há, ainda, duas personagens que são pertinentemente eliminadas: uma das irmãs de Mr Bingley (futuro marido de Jane) e o seu marido. Foi uma jogada inteligente do realizador Joe Wright, pois a relevância destas na trama é nula. Não consigo, aliás, perceber a intenção de Jane Austin em incluí-las no livro.

Para além disso, no geral, a narrativa flui bastante bem, o que torna o filme muito agradável de ‘visionar’ (como se diz agora).

Ainda assim, falta algo para tornar a película excelente. Na realidade, seria difícil sê-lo, como já disse, para alguém que acaba de ler o livro. Falta e faltaria sempre aquela sedimentação dos factos relatados e das relações entre as personagens, que apenas a escrita, pelo tempo de que dispõe, conseguirá criar. Porém, penso que o realizador poderia ter insistido mais naquela que é, afinal de contas, a história principal do livro. A grandiosidade do romance está na mestria dos detalhes à volta da interacção entre Elizabeth e Mr. Darcy. O modo como o desdém da primeira vai desaparecendo progressivamente para culminar no sentimento diametralmente oposto. O livro desempenhará sempre melhor essa função. Mas o filme poderia ter ido mais longe, focando-se mais na história central e menos na trama lateral.

Um álbum e um filme…

Junho 21, 2009

…separados quase 70 anos no tempo.

O Grande Ditador, de Charlie Chaplin (1940)

Esta é a história paralela entre duas personagens, ambas interpretadas por Chaplin: um sanguinário ditador, Adenoide Hynkel, e o seu objectivo de dominar o Mundo e um barbeiro judeu,  internado durante largos anos por questões de amnésia e de falta de noção do tempo e que sai do hospital num cenário político e social completamente diferente, em que os judeus são humilhados e chacinados pelos arianos (como diz o autor no início do filme, um período em que “a loucura predomina, a liberdade desaparece e a humanidade levou um pontapé”)

Foi no pré guerra e no início da 2ª Guerra Mundial que Chaplin concebeu esta obra-prima. Como tal, uma sátira ao nazismo e ao holocausto, como é este filme, facilmente poderia resultar numa obra de um mau gosto profundo (o próprio Chaplin disse anos mais tarde que se tinha arrependido de ter feito o filme). No entanto, bem pelo contrário, este filme é a prova máxima de que, quando feito com distinção, inteligência e classe, o humor não pode ter tabus, mesmo nos assuntos mais delicados, especialmente quando tem propósitos bastante mais alargados do que apenas fazer rir.  Existem por aqui momentos verdadeiramente hilariantes (por exemplo, as cenas da moeda, da barbeagem ao som de Brahms e do encontro entre Hynkel e Benzino Napoloni – Mussolini, pois claro – são geniais), mas também outros de natureza mais dramática e introspectiva e que muito nos fazem pensar. Muito mais do que um filme sobre o nazismo, é, como todas as obras maiores, um filme intemporal, com uma mensagem de idealismo, de humanismo, de esperança e de apelo ao inconformismo popular que faria tanto sentido na época, como faz no presente ou fará no futuro. Neste contexto, é essencial destacar o final, seguramente um dos finais e um dos discursos mais brilhantes e incontornáveis da história de cinema. Fica aqui um excerto desse discurso:

Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos esse poder, unamo-nos todos. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos dê uma oportunidade de trabalho, que dê futuro à junventude e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que ditadores têm subido ao poder. Mas eles mentem! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores libertam-se e escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abolir as barreiras nacionais, terminar com a cobiça, o ódio e a prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos nós. Em nome da democracia, unamo-nos!

P.S. 1: Os Estados Unidos, revelando uma profunda intolerância (para não dizer estupidez), uma imagem de marca bem patente na história americana, proibiram o filme em alguns locais e colocaram entraves à presença de Chaplin no país. Tudo isto por considerarem o filme uma ode ao comunismo, não percebendo o óbvio, ou seja, que tem um alcance muito maior.

P.S. 2: Apresentei este filme recentemente no programa 1X2 da RUC. Brevemente estará o podcast no blog do programa (www.1×2ruc.blogspot.com)

Oi Va Voi – Travelling the Face of the Globe (2009)

Nos últimos anos surgiram bastantes projectos americanos que aliam a uma forte sensibilidade pop a influência nas sonoridades originárias do Balcãs e do leste europeu. Nomes como Devotchka, Gogol Bordello, Beirut ou A Hawk and a Hacksaw são alguns dos nomes da face mais visível dessa fusão. Em contrapartida, o mesmo não se passou em terras britânicas, onde as movimentações folk em redor dos ritmos sonoros provenientes dessas regiões geográficas praticamente não se fizeram sentir. Os Oi Va Voi são um dos poucos exemplos dessa realidade, com destaque para a recriação da música judaica, fruto da ascendência familiar de alguns dos seus membros, contando com 3 discos editados antes de 2009, mas com um reconhecimento público relativamente reduzido.

Travelling the Face of the Globe é o 4º album de originais e mantém as premissas dos discos anteriores, ou seja, música judaica (klezmer e companhia), outros ritmos do leste europeu e, se calhar, até latinos e, pontuando essa mistura de sons, uma clara estrutura pop. O início do disco é muito forte. O requinte e a delicadeza dos arranjos de “Waiting”, a profunda espiritualidade de “I Know What You Are” ou o ritmo irrestível do tema título, são, desde logo, um prenúncio para um grande disco. O tema seguinte, “Every Time”, single de apresentação, é um dos poucos passos em falso. A ideia de ter como single um tema com um formato mais easy-listening e baladeiro não foi definitivamente uma boa ideia, como se comprova ouvindo o tema. O outro passo em falso talvez seja, embora em proporções menores, “Foggy Day”, que nos remete um pouco para o ambientalismo dos Zero 7, mas em formato bastante menos interessante. Em todo o caso, nada que diminua acentuadamente o valor do disco e que impeça a existência, por aqui, de outros grandes momentos,  como o intimismo presente na adaptação do tradicional hebreu “S’brent”, com voz da húngara Agi Szalóki, os toques etéreos de “Wonder”, o profundamente contagiante “Long Way From Home” ou, a fechar da melhor forma este Travelling the Face of the Globe, a perfeição pop de “Photograph”, com a voz do francês Dick Rivers.

Em suma, pode ainda não ser desta que os Oi Va Voi obtenham o merecido reconhecimento mediático, mas nem por isso este deixa de ser, para mim, um dos grandes discos editados nesta primeira metade de 2009.

Como o único tema disponível do disco para aqui colocar é o single “Every Time”, que definitivamente não o representa da melhor forma, deixo-vos “Ladino Song” de Laughter Through Tears de 2004.

P.S. Este texto será também publicado no blog www.popoconstrutor.blogspot.com, programa de pop da RUC, no qual o álbum foi destaque na semana transacta.

Se a minha história fosse contada…

Junho 19, 2009

a mesa

« …and there stood Pedro. Weak on his legs. Grabbing a worthless piece of paper as it might be used as a shield, or his pen as a sword, against his Jury’s rage. He realized at that very moment that he could only get away alive by being the leading character, the protagonist, of an unprecedented miracle.


Not him, nor anyone, could predict that a supposedly normal exams season would turn into such an epic saga.”


- The Bordeaux University Gardener, scaring a bunch of freshmen.

De que estavam à espera?

Junho 19, 2009

No “ensino básico”, a prova só poderia ser…”básica”.

Boa publicidade… Apetece uma cerveja!

Junho 19, 2009

Unbreak My Heart…

Junho 19, 2009

Os assessores e marketeers que cirandam o primeiro-ministro podem tê-lo preparado muito bem para a entrevista desta semana, vestindo-lhe uma pele de cordeirinho manso que, em princípio, terá resultado junto do centrão de coração mais mole, que imediatamente se puniu por ter votado “no Rangel”. Mas há uma que nem estes vão desculpar, sobre os clientes do BPP: “Parte-me o coração…”. Soa sempre artificial… “Parte-me o coração”!? Wtf!?

Não Me Canso de Dizer

Junho 19, 2009

Quando são os próprios alunos – demagogos por excelência – a afirmar que determinada prova “era básica”… Não estará alguma coisa mal? Ou também são, para o Sr. Sócrates e para a D. Maria de Lurdes pessimistas, inimigos do Portugal moderno que quer avançar, aproveitadores políticos, etc.?

Mais um…

Junho 18, 2009

… tiro no pé de Manuela Ferreira Leite.

Defender autárquicas e legislativas em simultâneo é apenas e só uma demonstração de estupidez. O sector político passa a vida a defender a autonomia do poder autárquico e que este não se confunda, de modo algum, com o poder legislativo. E agora MFL defende que eleições tão importantes, com motivações tão diferentes, se realizem ao mesmo tempo, de forma a tornar todo o processo eleitoral (campanha, votação, balanço eleitoral…) um verdadeiro caos.

Percebe-se a motivação para esta opinião: pura e simplesmente aproveitar o domínio autárquico do PSD nos últimos anos para ganhar votos nas legislativas. Mas o facto de se perceber que é uma manobra de pura habilidade e táctica política para defender algo indefensável ao abrigo dos princípios do bom-senso, é mais um fortíssimo abalo na sua já mais que diminuta credibilidade.

Notas Soltas

Junho 17, 2009

1. O que se passa no Irão deve servir como uma boa bofetada de luva branca a todos aqueles que ficaram em casa porque estava a chover, porque tinham bem melhor para fazer ou porque simplesmente não estiveram para se maçar. Sinceramente, acho o desprezo das pessoas pelo sistema eleitoral um insulto, ainda mais quando muitas delas provavelmente são as primeiras a cantar o refrão da mediocridade dos governantes eleitos, bla bla bla. Deixemo-nos de tretas: o voto serve para escolher aqueles que que queremos ou não queremos que nos representem. Se os candidatos não agradam, votem em branco, mas votem. Ficar em casa é como abrir a fresta da janela, deixar entrar a corrente de ar e culpar alguém pela gripe.

2. O Governo adiou o projecto do TGV. É óbvio que se trata de marketing político, ou seja, funda-se apenas em razões estratégicas, como tudo o que os governos fazem. Outro dia dei por mim a ler o “Correio dos Leitores” do Diário de Coimbra (só leio diários de referência); no meio de queixas sobre ervas daninhas em rotundas estava um testemunho impressionante de alguém que assistiu a um familiar a definhar nos cuidados de saúde públicos. Entre relatos absolutamente inqualificáveis de negligência e desconsideração pela dignidade humana vinha o conselho de uma enfermeira para “poupar no Tantum Verde”, já que “só tinham direito a uma tampa por doente” (qualquer coisa do género). Nós sabemos que estes projectos são concessionados, com muitos custos suportados por privados e pela UE, que se fundam no interesse público, etc. Nós sabemos. Talvez este familiar não. Só sei que este relato não me saia da cabeça enquanto assistia às imagens do espaço 10 de Junho da Presidência da República no “Second Life” (uma plataforma utilizada, pelos vistos, por toda gente – menos pela que eu conheço) e pensava nos milhares de euros que ali estão enterrados.

3. No Irão os protestos aumentam de volume, apesar de todos os esforços do govenro de Ahmadinejad para silenciar a comunicação social, principalmente a estrangeira. A desvantagem das ditaduras não isoladas (ex: Cuba, Coreia do Norte) é que as pessoas sabem. E quando as pessoas sabem é muito difícil manipular verdades e resultados. Acho fabuloso que as pessoas saiam para à rua, sem medo das consequências. Esperemos que a recontagem prossiga, e que se houver efectivamente fraude Ahmadinejad seja exemplarmente punido, acabando-se com a prepotência do líder que, a seguir a Kim Jong Il, é um dos maiores perigos para a ordem mundial.

4. Um dos programas de televisão que acompanho mais regularmente é o “Eixo do Mal”, na Sic Notícias. Acho o formato interessante e os intervenientes bem escolhidos. No entanto, no último programa fiquei com uma ligeira sensação de mal estar quando ouvi as gargalhadas um tanto ou quanto alarves de Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves sobre Vital Moreira. O problema é que não eram sobre o candidato, mas sim sobre o facto de “ser de Coimbra”. Aproveitaram para gracejar imediatamente sobre a Associação Académica de Coimbra e sobre “as tunas” (tudo por causa da história da “roubalheira”). Irrita-me este novo “tique” de alguns comentadores (como Vasco Puido Valente e Pacheco Pereira, por exemplo): de repente, ser-se ou ter-se estudado em Coimbra é um crime, e os estudantes/ docentes de Coimbra são todos uns alarves provincianos. E não é que uma fatia considerável não seja. O que me deixou irritado é que provavelmente desconhecem a importância que a Associação Académica de Coimbra teve em lutas políticas passadas, bem como a importância que teve e tem como pólo de cultura da região centro. Quem conhece o edifício sabe que não abundam “as tunas”, e que muito para além destas há dezenas de grupos (etnografia, teatro) com provas bem dadas. Ao contrário do que pensam, o resto do país não é paisagem. Ocupando o lugar de destaque que ocupam, deviam medir melhor o que dizem.

5. Para terminar, deixo aqui aquele que para mim é um  dos melhor spots políticos do século XXI. Simpatize-se ou não com o partido em causa, e apesar de alguma demagogia, está genial.