Arquivo de Maio, 2009

Ser professor na actualidade: uma aposta ousada?

Maio 31, 2009

Ao longo deste texto, tentarei fazer uma análise simples e genérica da condição de ser professor na actualidade. Tratando-se de um texto relativamente curto e pelo facto de ainda estar a realizar o estágio, será necessariamente uma abordagem superficial em que, mais do que dar respostas concretas, farei uma reflexão muito pessoal, sincera e directa.

A actividade docente tem sido nos últimos anos uma profissão particularmente mediática, embora muitas vezes por outros motivos que não aqueles que deveriam ser os mais prementes, os que dizem efectivamente respeito ao ensino e à aprendizagem. Assim sendo, agudizando de modo assinalável um caminho já traçado pelos seus antecessores, tem havido uma preocupação da parte do ministério da educação em, com objectivos obscuros ou predominantemente economicistas, culpabilizar e humilhar os professores pelo que de mal se vai passando nos terrenos educativos, incutir-lhes um papel burocrático e administrativo que em nada beneficia o ensino e a formação dos alunos e afastar pessoas válidas e com vocação para a docência. Não é difícil enumerar um conjunto de medidas que mostram isso mesmo:

- fim do consensual sistema de estágio anterior (um estagiário com turma própria) a dois meses do início do ano lectivo seguinte e com o único objectivo de estes deixarem de ser remunerados

- a colocação de profundos entraves à formação de professores, num processo de aprovação dos mestrados e dos respectivos numerus clausus pouco transparente e extraordinariamente desorganizado, revelando incompetência, irresponsabilidade ou má-fé.

- a tão defendida avaliação de desempenho docente que, ao invés de contribuir para a melhoria da qualidade de ensino, só enche a escola de burocracia claustrofóbica e tem como único objectivo a poupança de fundos estatais.

- a cultura da pura propaganda, com “Magalhães”, quadros interactivos, aulas de substituição e toda uma panóplia de ideias aparentemente milagrosas, que pouco ou nada contribuem para a melhoria do ensino;

- uma lógica onde impera o facilitismo, onde os exames são cada vez mais simplificados e onde há uma preocupação maior com as estatísticas do que com o real mérito e com a qualidade de ensino, fabricando-se um sucesso ilusório e não real;

- um estilo e um discurso arrogantes e autistas, que só contribuem para o descrédito dos professores e para a sua perda de respeito e autoridade perante os alunos, na sala de aula ou na escola;

A acompanhar tudo isto, há também que realçar o estrangulamento do sistema educativo, com poucas vagas, mesmo em Matemática, o que, com o fantasma do desemprego iminente, começou progressivamente a afastar potenciais professores da via de ensino.

Em todo o caso, apesar de todo este espectro relativamente negro, continuo a acreditar nas virtudes de ser professor. Eis alguns dos motivos:

- a educação é e será sempre uma das chaves mestras de uma sociedade próspera e desenvolvida e um professor um pilar essencial de todo o sistema, pelo que, mais tarde ou mais cedo, a sua reputação e importância serão novamente reconhecidos;

- é incrivelmente estimulante sentirmos a responsabilidade de transmitirmos os nossos conhecimentos às gerações vindouras. Não só no que se refere à disciplina que leccionamos, mas em termos de formação humana, de potenciar as capacidades dos alunos em termos de expressão, de capacidade de argumentação e do seu interesse cultural;

- tratando-se de uma actividade que envolve de forma declarada o processo de relações humanas e o consequente contacto com colegas, alunos e funcionários muito diferentes, muito heterogéneos, estamos também nós constantemente a aprender;

- há estabelecimentos de ensino com um bom ambiente de trabalho, inconformados e que recusam ceder a todo este processo de transformação nociva da escola e/ou que pragmaticamente fomentam a sua parte essencial: a melhoria das condições de ensino e de formação individual dos alunos.

- há algumas razões para estarmos optimistas num futuro melhor. Nomeadamente em termos de emprego, a necessidade crescente de professores de Matemática, em virtude de certas alterações vigentes, o reduzido número de pessoas formadas nos últimos anos na via de ensino e, pelo contrário, o elevado conjunto de pedidos de reforma, fazem antever um futuro em que, não só não haverá desemprego nesta área, como haverá falta de professores para corresponder às exigências;

Ser professor na actualidade – Uma aposta ousada? Seguramente. Mas, tal como em todas as apostas, se acreditamos firmemente que é isto realmente que queremos fazer, se estamos convictos que é este o nosso destino ou vocação, então só temos de seguir em frente, fazer tudo para atingir o nosso objectivo e ter esperança na mudança da conjuntura docente e, claro, no aparecimento de dirigentes políticos mais conscientes, que proporcionem aos professores condições de trabalho mais atractivas e que considerem, eles também e sem demagogias, o ensino e todo o sistema educativo uma verdadeira aposta para o futuro. Em suma, devemos seguir o nosso sonho profissional, qualquer que ele seja e quaisquer que sejam as dificuldades. Porque, como nos canta Manuel Freire na maravilhosa interpretação do óptimo poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão:

“(…)Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança”

 

P.S. 1: Este texto foi originalmente publicado no jornal O Ábaco do Núcleo de Estudantes de Matemática da AAC, incluindo em alguns momentos excertos já aqui colocados num post anterior.

P.S. 2: Este texto surge num timing lógico. Ontem, apesar de muitos aspectos desmobilizadores (desgaste, desânimo, período de testes e avaliações e até o profundo calor que se fez sentir), muitos milhares de professores voltaram ontem a comparecer na manifestação nacional, mostrando de forma clara os motivos do seu descontentamento, a “Força da razão”.

Isto é um título…

Maio 31, 2009

Uma palavra de apoio e de consolo ao amigo Torgal, cujas raízes espanholas devem neste momento chorar incessante e exacerbadamente a derrota do seu rebento Nadal. Torgal, esperemos que esta derrota te ilumine e te abra os olhos para o talento que temos por “cá” (fala do Federer, claro).

Angelina Jolie muda-se para Portugal

Maio 30, 2009

Não, não é mentira. Ou então eu sou tão crédulo que acreditei quando um amigo meu sul-africano me disse que este era o maior site noticioso do seu país.

Se for verdade – o que duvido, mesmo acreditando na fiabilidade da fonte -, não faltarão capas de revista e reportagens televisivas a cobrir a chegada do casal. Preparem-se!

The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs

Maio 29, 2009

Gender Mainstreaming

Maio 29, 2009

Esta reflexão surge na sequência do texto da Marta relativo a lei da paridade ou ainda do post do José sobre as Mulheres no Quénia e sobre o ensino.

Confesso que, até há relativamente pouco tempo, a interminável historia sobre a discriminação das mulheres não me despertava particular interesse. Porquê tanta celeuma? As mulheres, após um século de vagas feministas, não conseguiram já o estatuto pretendido, isto é, o de igualdade perante o homem?

Pensei, sim, que as discussões actuais eram sobretudo em torno de ninharias ( ex.: “Direitos do Homem” ou “direitos universais”? Apesar do “H” grande, esta denominação ainda estava, até há pouco, na agenda de alguns lobbys feministas europeus.). Pensei igualmente que, se havia de facto discriminação, tratava-se de um “delay” nas mentalidades face ao direito já instituído e que se tratava tudo de uma questão de tempo, e não de manifestação feminista, até que o direito se tornasse efectivo.

Foi precisamente o post da Marta sobre a lei da paridade que me avivou o interesse. Isso e o slogan que vi, não há muito, em Portugal:

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Uma vez que precisava de um toque renovado na minha sensualidade, decidi debruçar-me um pouco mais sobre o assunto.

Ora a questão de haver mais mulheres a viver com o salário mínimo do que homens (9,7% para 4,6%, mais do dobro), como dizia a Marta, é apenas uma gota no oceano. De facto, no trabalho e na politica, na Assembleia da República, na educação, as disparidades são quase escandalosas. Digo “quase” porque muitas destas diferenças são vistas como “naturais”, por elas e por eles. Por exemplo, na educação, é de estranhar ver uma rapariga em engenharia mecânica ou um rapaz em psicologia (e, já agora, sociologia). A única mudança que parece ser efectiva neste panorama é no quadro familiar (repartição de tarefas, sobretudo em casais jovens) e, particularmente, o que é curioso, na cama.

A primeira tem sido alvo de uma serie de politicas que ressalva um novo paradigma nas politicas de género, a segunda é uma mudança de mentalidades (a “performance” conta…).

Espanta-me em ouvir falar  ainda hoje de leis de paridade, sobretudo, se não acompanhada de uma reestruturação de fundo dos quadros políticos. Actualmente, e apelo aos nossos especialistas de serviço para nos presentearem com as suas opiniões, estou em crer que o direito pode, efectivamente,  fazer avançar a realidade.

Senão vejamos, até aos anos 90, o problema residia na dística politicas de igualdade ou de diferença. A mulher deve ser tratada de maneira idêntica, relativamente ao homem, ou de forma diferente?

Qualquer uma das opções apresenta desafios. Por um lado, a politica de igualdade concentra-se sobre os procedimentos, o legal,  e não nos resultados que acabam por demonstrar a ineficácia das acções. Por outro, as politicas de diferença/discriminação, que surgem para colmatar as disparidades entre o legal e o real, “enclausuram” as mulheres numa categoria de acção pública à parte, deixando os homens de fora da resolução do problema, perpetuando resultados insatisfatórios.

Independentemente da opção, estas abordagens tradicionais só actuam a posteriori e nada resolvem: um investimento perdido. Exige-se portanto, e isto é o “gender mainstreaming” (novo paradigma das politicas de género na UE), um direito compreensivo, isto é, que tenha em conta o mecanismo social de reprodução das desigualdades (as mentalidades), que actue ex ante e em “profundidade” (daí eu dizer que a lei de paridade não faz sentido por si só). Mas, sobretudo, inclua os homens na resolução das diferenças.

Quer isto dizer, Zé Maria, sobre o que falavas há uns tempos sobre o ensino, que o facto de os rapazes preferirem futebol ao ballet não é “natural”. É uma representação social. Haverá certamente nuances biológicas a ter em conta, embora as ache pouco significativas. Os rapazes podem apaziguar a sua “reguilice” noutras actividades que não o futebol. Seria mais pertinente perguntarmo-nos, ainda nas diferenças biológicas, porque é que os melhores oradores do mundo são homens quando é a mulher que tem o gene da fala mais desenvolvido. Ou então, se existe mesmo uma predisposição maior nas mulheres para a cozinha, porque é que os melhores cozinheiros do mundo são homens.

Não quer isto dizer que estejas desprovido de razão. Se o ensino primário é “feminizado”, é tão só a confirmação de que ainda são as mulheres que se ocupam desta área do ensino apesar de a maioria ter mais qualificações que o restante universo masculino… este aumenta progressivamente na hierarquia até ao patamar do ensino superior, onde predomina.

É assim senhores, a coisa tem de mudar. Aqui entre nós, a verdade é que elas precisam de nós para isso, rapazes (eh eh!).

 

P.S.: Perdoem qualquer erro grave no português, sinto-me francamente enferrujado.

Como me pediram para dar um título…

Maio 27, 2009

Recentemente, li no “The New York times” uma notícia sobre uma proposta de lei avançada por Barack Obama no sentido de permitir que suspeitos de terrorismo pudessem ficar em “prolonged detention”, o que no nosso sistema equivalerá à prisão preventiva (com algumas reservas, uma vez que há também a figura da detenção, que consiste na situação do suspeito/arguido até ser presente a um juiz). No sistema penal norte americano, dominado por um “rule of law“, dá-se prevalência à protecção dos direitos do arguido/suspeito sobre o interesse do estado e da comunidade em descobrir a verdade. E daí que as hipóteses de prisão preventiva sejam taxativas e se pretendam raras. Tanto assim é, que muitos constitucionalistas americanos estão em crer que a proposta será barrada ou chumbada pelo Supreme Court.

Na mesma notícia, dizia-se que o instrumento da “prolonged detention”, ou da prisão preventiva – entre nós- teria um “slightly totalitarian ring”, ou seja, um tom algo totalitário. A notícia despertou-me a atenção pelo seguinte: é que, em primeiro lugar, não deixa de ser curioso que se perscrute uma tonalidade totalitária numa medida como a prisão preventiva num estado em que até há bem pouco tempo – quiçá ainda – se extorquiam confissões e informações através de meios de tortura e de coacção de vontade. Dick Cheney pode dizer que não é tortura, mas entre nós, estados em que existe esse instrumento totalitário que é a prisão preventiva, parece que é. Em segundo lugar, a prisão de Guantánamo sustentava-se, no fundo, numa ideia de “estado de direito em estado de necessidade”; e Obama, ao mostrar intenção de a encerrar, parece querer repor o estado de necessidade no estado de direito. As reservas manifestadas pela opinião pública no acatamento da proposta de Obama no sentido de uma “prolonged detention” para os terroristas evidenciam que talvez a vertigem securitária do “patriotic act” de Bush esteja já em vias de superação…Mas, enfim, não deixa de ser com grande alívio que percebo que nós, europeus continentais totalitários, há muito que já estaríamos preparados para esta vertigem com a nossa prisão preventiva…

Slogans de campanha…

Maio 27, 2009

Há slogans bons, maus, que dão a volta… e depois há estes:

“EUROPA É VITAL”

Maio 27, 2009

Esperei não viver o suficiente para ver isto.

Leitura Recomendada

Maio 27, 2009

“Salões de cabeleireiro são quase um “must” da campanha de Vital Moreira

(…) Em Chaves, o constitucionalista da Universidade de Coimbra fez mesmo um comentário muito abonatório para uma senhora cabeleireira: “com umas mãozinhas como essas até arriscava cortar o cabelo à primeira”, disse.

Na Guarda, numa ocasião em que tinha ao seu lado o presidente da Câmara da cidade, Joaquim Valente, a conversa foi sobre ondas de cabelo molhado, mas aí não mostrou qualquer interesse em experimentar o estilo…”

Nós, Europeus.

E sim, veio no “Público

A Indisciplina dos Professores

Maio 27, 2009

Figura1

O mais recente episódio do reality show em que se estão a transformar as escolas portuguesas só pode ter uma finalidade. Para além de ser uma hipotética candidata a melhor curta do ano (o argumento é um luxo, e passo a citar: “Eu andei 12 anos na escola, 4 na faculdade, 2 no estágio e 2 numa pós-graduação e 1 numa especialização (…) entendestes?”), é um lúcido exemplo do jornalismo de causas, aquele jornalismo que denúncia ao mundo causas pelas quais (ainda) vale a pena lutar. Neste caso, a ferida aberta na sociedade, o cancro a necessitar de ser expurgado com urgência é… a indisciplina dos professores.

Desde cedo me apercebi que na escola faltava autoridade aos alunos. No ensino  básico, por exemplo, nunca percebi por que razão não pude dar um puxão de orelhas e umas reguadas à minha professora, já que ela detinha, aparentemente, o direito de o fazer (felizmente estudei numa escola onde o eduquês – esse código indecifrável de conversão do ensino em actividade exclusivamente lúdica – demorou a chegar). Nunca percebi por que razão a disciplina de História não se baseava unicamente na pintura de caravelas, numa clara interdisciplinaridade (uma coisa que agora parece ser obrigatório haver). Ainda hoje sofro ao pensar nas dinastias que fui obrigado a saber, nos cognomes que fui obrigado a decorar, nas datas que convinha saber e nas reguadas que apanhava por cada erro ortográfico. Enfim, esta permissividade que foi dada aos meus professores do ensino básico teve resultados óbvios: sou hoje uma pessoa extremamente mal formada e complexada por não escrever (como tantos mamíferos da mesma colheita) “houveram” e “fize-mos”.

Mas o descalabro foi mesmo no 7º ano. Éramos um conjunto de jovens tão maduros, bem formados, bem comportados, informados e cultos que, por mais voltas que dê à cabeça, não consigo perceber o porquê de nos terem dividido a turma. Lembro-me na altura de uma quantidade infindável de reuniões, em que até nos era dada a palavra para denunciarmos os maus tratos que sofríamos nas mãos das criaturas inenarráveis que nos davam aulas. Eram umas bestas. Falavam ao telemóvel dentro da sala, cuspiam no chão, copiavam nos testes descaradamente (acho que eram eles, mas não tenho a certeza… já lá vão tantos anos…). Enfim, muitas reuniões depois lá se decidiram por nos tratar como macacos e pôr-nos no devido lugar. Isto é mais uma evidente prova de indisciplina dos professores. Foi pena que não houvesse nenhum pai suficientemente lúcido para os colocar também no devido lugar (se bem que, se me lembro, ainda houve (… houveram?) uns que tentaram). Onde estavas tú, Eduardo Sá, quando tanto precisámos de ti? Onde estavam as educadoras para explicar que se tratava apenas de um processo normal de desenvolvimento cognitivo de competências sociais? Que a experimentação é boa para os jovens? Que crescer tem destas coisas?

Como todos sabemos, o problema da indisciplina dos professores só pode ser resolvido com umas boas bofetadas, dadas de preferência pelos alunos (mas também podem ser os pais, claro). Num país de estatutos e de divinização do grau (costumava ser assim, pelo menos, e que o conte a professora do vídeo),  o problema da indisciplina não pode ser resolvido. Até ao final do secundário, o problema serão sempre os professores, porque os alunos, coitadinhos, são criancinhas: puras, virgens, imaculadas – a professora era uma besta mas saberia provavelmente o que estava a dizer. A partir do secundário a culpa de todos os males de Universo é sempre dos alunos, porque o senhor professor doutor (vénia) sabe tudo, soube sempre tudo (suspeita-se que tenha nascido ensinado) e nunca ninguém (à excepção dele próprio) quis saber se era capaz ou não de dar aulas, se tinha ou não qualidades humanas e competências técnicas para o fazer, se os cargos que vai acumulando lhe permitem – se não for muito incómodo, claro – comparecer nas aulas. Nada que umas reguadas não resolvessem, certamente…