Arquivo de Agosto, 2008

Estado de Necessidade

Agosto 31, 2008

Chegámos, durante o mês de Agosto, à conclusão que afinal vivemos mesmo na América Latina. Até agora achávamos: “Ah e tal, somos latinos, mas como estamos na UE, logo, isto nunca vai ficar igual”. Mas a verdade é que vai, e que já se está a tornar. Ou será que não?

 

Esta onda de assaltos despertou nas pessoas o instinto primário de justiça rápida e eficaz, feita na hora, cujo desfecho é facilmente esquecido, já que o problema fica, aparentemente, resolvido. O governo, sempre pronto a interpretar estes sinais dos tempos, decidiu avançar com superpolícias, chips, e toda uma panfernália de medidas de segurança que as pessoas recebem sem sequer se questionarem se são ou não uma afronta a alguns direitos e liberdades. Isto porque a sede de justiça contra esses criminosos, aliada à grave onda de criminalidade (consubstanciada em assaltos que se contam pelos dedos das mãos) que os media não se cansam de bradar faz com que as próprias pessoas sejam as primeiras a ceder ao Estado o direito de lhes limitar a liberdade, já que em causa estará sempre um bem maior.

 

As opiniões de alguns iluminados que comentam blogs dividem-se, mas há sempre os que nada temem, já que “nada devem”.  A discussão está irremediavelmente centrada na polémica gerada por estas medidas e não no problema de fundo: a forma como as instituições lidam com a entrada de centenas de imigrantes que são encaminhados para guetos construídos, de preferência, longe das cidades. Enquanto não saírem de lá não há problema nenhum. E é claro que não se vai controlar a imigração, já que isso seria uma afronta ao politiquês dos Louçãs deste mundo.

 

Mas também não é de surpreender que se pretenda deixar as coisas como estão. Os imigrantes que seguem uma vida de delinquência são os principais funcionários das cadeias de distribuição de droga; por outro lado, são mão-de-obra barata e preciosa para o grande capital. Para a direita burguesa e alguma fina-flor do PS, a solução está, geralmente, em contratar segurança privada que afaste os imigrantes delinquentes que lhes construíram as casas e os hotéis de luxo onde passam férias (os delinquentes portugueses dedicam-se apenas, geralmente, a assaltar).

 

Não passaria a solução por controlar a entrada de imigrantes e dissolvê-los pelos pequenos/ médios centros urbanos, ao invés de os concentrar nas periferias das grandes cidades? Como? Oferecendo habitações sociais que não se localizem em imensos guetos, instrução em escolas em que 90% dos alunos não provenham de famílias altamente carenciadas, etc. Não creio que alguém emigre para se tornar criminoso: ou já o é ou são as circunstâncias que forçam o indivíduo a tal. Vivemos num país em que felizmente ainda é possível fazer alguma coisa pela imigração. Será que, caso pudessem, não tomariam os franceses outras opções? Hoje vêm arder carros de madrugada. A pergunta é: faltará muito até sermos nós? 

Participação Olímpica Portuguesa – O outro lado da questão III

Agosto 26, 2008

Estes textos que anteriormente transcrevi, de que genericamente concordo, só demonstram que a grande maioria das críticas aos atletas olímpicos portugueses são irresponsáveis, inconscientes, uma forma pura e simples de despejar as frustrações do quotidiano do tuga (que, no fundo, deseja arduamente que as coisas corram mal para depois poder insultar à vontade), demonstram um moralismo absolutamente hipócrita e revelam uma desproporção enorme em relação ao que se exige dos jogadores de futebol, que ganham fortunas (mesmo provenientes de dinheiros públicos, não tendo qualquer tipo de pruridos de exigir sempre mais e mais – basta ver o caso do Mundial 2006 e a questão dos prémios livres de impostos) e a quem, na realidade e comparativamente, não se pede muito.

 Cada vez me convenço mais: mesmo dizendo eu que gostava de ser espanhol, acabo por gostar mais deste país do que muitos que acenam a bandeirinha.

Participação Olimpica Portuguesa – O outro lado da questão II

Agosto 26, 2008

Para Marco Fortes

 

Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão bem de manhã: “de manhã é para estar na caminha — eu queria esticar as pernas mas elas só queriam estar na caminha”. Que é isto?! Em toda a minha vida, só ouvi um português dizer que “de manhã não funciono”: Sousa Franco. E foi preciso ter sido ministro das finanças duas vezes, presidente do tribunal de contas — um homem sério, portanto — para poder afrontar esse tabu.

Mas Marco Fortes fez pior: ainda teve o descaramento de sugerir aos outros atletas que valia a pena trabalhar para ir a Pequim, aos Jogos Olímpicos, pela “experiência”. O ultraje, o ultraje! Quem se julga este badameco para sugerir que participar num belíssimo evento desportivo, com atletas de todo o mundo, é uma boa experiência? Algum apóstolo do espírito olímpico?

Não sabe ele que o importante é só ganhar, ganhar pela pátria e pelos contribuintes que lhe “deram” uma bolsa, honrar a pátria e os contribuintes, dizer banalidades pela pátria e pelos contribuintes, ter juizinho pela pátria e pelos contribuintes?

Se esteve demasiado distraído enquanto lutava pelos mínimos olímpicos para reparar que neste país toda a gente se levanta cedo, é o melhor das respectivas áreas e vive uma vida de sacrossanto respeito pelo contribuinte, os dias seguintes lho ensinaram, através de um coro escandalizado de comentadores, jornalistas e políticos, que não se pode — não se pode! — fazer humor com coisas sérias e apreciar o desporto e o mundo porque são simplesmente o desporto e o mundo. E se estava demasiado longe para ver toda aquela gente sisuda fazendo tsc-tsc-tsc com os músculos faciais bem espremidos, logo foi recambiado para Lisboa com um bilhete de avião suplementar — que o dinheiro dos contribuintes nunca é demais para dar lições a quem merece.

Pois bem, Marco Fortes, deixa-me tratar-te por tu: espero sinceramente que não consigam vergar-te, moldar-te, ajoelhar-te. Que neste país onde inventaram a lobotomia, não consigam lobotomizar-te: o resultado seria ver-te, como já vi na televisão, pedir desculpa pelas declarações “infelizes”. São agora declarações infelizes não culpar o árbitro mas a si mesmo, reagir como se não fosse o fim do mundo e sugerir que estar nos Jogos Olímpicos é, por si só, uma experiência fantástica? Que diz isso sobre nós como país, não desportivamente, mas moralmente?

Como muitos portugueses dei por mim emocionado com a medalha de ouro de Nelson Évora. Mas deixou-me desconfortável saber que, à mesma hora, não poderias estar ali para festejar com o teu colega. Não pensaram os senhores burocratas que para haver um Nelson Évora houve outros Marco Fortes que participaram nas mesmas provas, e que os Jogos Olímpicos são feitos de muitos não-campeões, e feitos para eles também? Não; tinham de condenar-te a um castigo inútil e sem objectivo que deveria estar reservado para quem faz batota ou recorre ao doping.

Quem te condenou, caro Marco, está já condenado: a uma vida sem humor, a ter de provar que é sério, mais sério do que toda a gente. É uma vida triste e seca. Como atleta, poderias só lhes dar ouvidos quando eles conseguirem chegar aos mínimos olímpicos. Eu sugiro outra opção: só ligar à indignação dos comentadores portugueses, dos jornalistas portugueses, dos portugueses portugueses, quando um dia eles conseguirem não estar sempre indignados por qualquer coisa.

                                                     Rui Tavares, in Publico de 26 de Agosto

 

 

 

Participação Olímpica Portuguesa – O outro lado da questão I

Agosto 26, 2008

A tragicomédia olímpica

 

2008 annus horribilis em Pequim é o título provável com que ficará na história a odisseia dos atletas portugueses nestes Jogos Olímpicos. Foi toda uma tragicomédia olímpica que se instalou no país, indignado com as poucas medalhas, a escassez de brio e a inconveniência oratória de alguns atletas. Logo o moralismo lusitano se elevou! Chorando os milhões gastos pela comitiva olímpica e condenando os desportistas e as desportistas que não declaram sofrer intensamente pela bandeira, quais Martins Moniz e Padeiras de Aljubarrota do desporto moderno.


Tínhamos direito a pedir-lhes mais? Sim, porque o Comité Olímpico Português conseguiu a proeza de assinar com o Governo um contrato estipulando previamente o número de medalhas a alcançar. No espírito dos dirigentes olímpicos portugueses a vitória não é uma probabilidade, mas uma certeza contratualizada. Pensávamos nós que o espírito olímpico significa que participar é mais importante do que vencer. Na versão portuguesa, ganha-se antes de participar.


Não admira que as expectativas fossem tão altas à partida. A muitos atletas, eventualmente ciosos de agradar aos patrocinadores, faltou prudência nas palavras. Não se deve esfolar a pele do urso antes de o caçar, aprendi eu com o druida do Astérix. As televisões levaram para Pequim o discurso do futebol, cuja chave é o verbo sonhar. Os atletas sonham, o jornalista sonha, o povo sonha, Portugal inteiro sonha com as medalhas. Vanessa ganhou a prata? Pois agora sonha com o ouro em Londres. O cavalheiro do remo passou a eliminatória? Pois Portugal volta a sonhar com a medalha. A palavra sonho devia ser banida do jornalismo televisivo português.

E tal como no futebol, depois de muito sonhar, sofre-se e castiga-se. Uma irracionalidade dá lugar a outra. Horror, há atletas que recebem mil euros ao mês, diz-se. Lá se foram 14 milhões de euros dos contribuintes, ouve-se. Que grande desperdício, chora-se. Até Obikwelu pediu desculpa pelo dinheiro gasto: mas o atleta a quem se exigia o ouro é pior pago do que um defesa-esquerdo de uma equipa da Liga de Honra de futebol. E 14 milhões é um terço do que custou em média cada estádio do Euro 2008, incluindo o prodigioso elefante branco construído no Algarve, que só abre quando o rei faz anos.


O país que pede aos atletas olímpicos que curem a nossa eterna depressão nacional é o mesmo que, ao longo de quatro anos, basicamente não liga pevide a qualquer desporto que não seja o futebol. É costume ver-se um campeonato nacional de atletismo na RTP1, na SIC ou na TVI? Ou de basquetebol? Ou de vela? Não, para além do chuto na canela só chegam aos grandes canais sucedâneos como… o futebol de salão ou o futebol de praia. Excepto se estiver envolvido o Porto, o Benfica ou o Sporting, aí o voleibol ou o andebol servem para desenjoar um bocadinho do prato principal. Os portugueses não gostam de desporto. Gostam de clubes de futebol.


E agora exige-se até que os atletas olímpicos estejam preparados para falar com a comunicação social… Para quê, se ninguém fala com eles o ano inteiro? Mas o mais grave é as declarações de três ou quatro atletas estarem a servir para transformá-los em bodes expiatórios, camuflando o evidente disparate de um comité olímpico que deu por garantidas medalhas que não podia prometer. E colocando em cima dos atletas uma pressão pouco recomendável.


Estou pois de acordo com Marco Fortes, o primeiro lançador do peso português a competir nuns Jogos Olímpicos, quando diz que a manhã é para ficar na caminha. Ele, ao menos, sonha a dormir. Tem mais juízo do que um país que passa o dia a sonhar acordado.

Miguel Gaspar, in Publico de 21 de Agosto

 

“Isso Não Era Para Contares, Pá!”

Agosto 20, 2008

“(…) O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, usou ontem à noite o exemplo de Portugal para salientar o crescimento económico da Venezuela, referindo que o primeiro-ministro José Sócrates lhe disse recentemente que a economia portuguesa “está estancada”…”

in Público

Um Foco de Lucidez

Agosto 19, 2008

Jardim tem toda a razão. Um novo partido político centrado na sua pessoa seria uma coisa fantástica para o país. E melhor ainda para o PSD, que assim se livraria dos seus, hum… habitués, popularuchos e demagogos e se tornaria, finalmente, um partido quase credível. No estado em que está a oposição não seria o ideal, mas seria o possível, pelo menos para tirar a maioria absoluta a Sócrates que, com o PSD no estado em que está, dorme, certamente, como um bebé…

Festivais de Verão – Andanças 2008

Agosto 15, 2008

 

Nunca sei bem que expectativas levar para um festival de Verão. Como em tudo, se as levo demasiado elevadas é quase certo que me vou desiludir. É por isso que vou sempre reticente. Vou tentar deixar aqui uma crítica alargada do que foi a minha experiência pessoal neste surpreendente festival.

 

 

Cartaz 2008

Cartaz 2008

 

 

 

O Cartaz

Imagine um festival em que os músicos chegam da mesma maneira que o resto das pessoas, acampam no meio delas e metem conversa com elas. Pois bem, isto é o Andanças. Não se surpreenda se ao andar pelo recinto for abordado por várias pessoas que identifica como pertencendo a bandas que actuam no festival. A ausência de backstage dá uma ideia bem clara do espírito que se vive.

As bandas são do que melhor se faz em Portugal, seguramente. Tendo algumas delas já CD’s lançados (e esgotados) é surpreendente como continuam a viver no meio da total obscuridade. Posso referir-me aos “Uxukalhus”, aos “Pé na Terra”, aos “Monte Lunai”, aos “Mu”, aos “Tor”, aos “Olive Tree Dance” etc. Provavelmente nunca ouviu falar em nenhuma delas. Eu também não teria, certamente, se não fossem os posts do João Torgal aqui n’ A Mesa (ele poderá contar-vos como foi fácil conseguir entrevistas).

Não há muito mais a dizer. São essencialmente bandas folk, jovens e de muita qualidade, na maior parte dos casos. Ninguém entende como não passam nas rádios. Não se trata de nada experimental ou de difícil ouvido. A maior parte é, até, bastante dançável (sendo esse um objectivo das bandas que vão ao Andanças, já que para alem da música popular também se pretende divulgar a dança).

 

Os Concertos

Imagine agora que aterrou no meio de um baile popular ou numa festa de aldeia (ranchos e grupos do género de todo o mundo actuam no Andanças), em que tem à sua volta dezenas de pessoas impecavelmente coreografadas a dançar. À tarde aprendem-se as danças, à noite dança-se. As bandas explicam com toda a paciência como dançar, as pessoas aprendem e aplicam os conhecimentos adquiridos à noite. É a melhor maneira de conhecer gente nova, caso tenha coragem (nascido não com um, mas com dois pés de chumbo, achei por bem deixar para quem sabe). É isto que torna os concertos tão diferentes neste festival (aparte da enorme empatia que as bandas criam com a audiência, em cima e fora do palco – algumas delas acabam os concertos a tocar no meio da público; o que não constitui nenhum problema, já que também não existem seguranças, nem grades): o espírito contagiante com que se assiste aos concertos: quem vê de fora não vê uma multidão esfusiante, mas um grupo coordenado de dezenas de pessoas a divertir-se. Diferente de tudo o que vi até hoje.

 

As Instalações

Não se compreende como é que num festival que tem, provavelmente, 1/3 do orçamento que a maior parte dos grandes festivais de Verão têm (basta dizer que é organizado por uma Associação cultural sem fins lucrativos) as condições são tão… boas. Existem dezenas de casas de banho montadas no recinto (casas de banho a sério, não casas de banho de plástico), bem como chuveiros (quentes e frios) e torneiras com água proveniente da Serra, sempre fresca e de óptimo sabor. Existem dois campings: um calmo, em que o barulho cessa às 21h, e um geral, em que o barulho cessa às 24h. Primeiro ponto negativo: tratando-se de um festival de Verão, não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h. Por outras palavras, é proibido qualquer ajuntamento a partir destas horas no interior do parque de campismo. No entanto, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Sudoeste, há espaço de sobra para acampar. Sobre as refeições falo no ponto a seguir.

 

As Refeições

Não me compete a mim julgar o destino que a Associação Pedexumbo dá aos lucros do festival. Devo dizer, no entanto, que a maior parte dos produtos e serviços comercializados no interior do recinto estão a preços perfeitamente razoáveis. Na maior parte dos casos estão aos mesmos preços a que se encontram fora do festival. As refeições na cantina são bem servidas e completas, e custam 5€. Exactamente o mesmo que se paga nos restaurantes fora do recinto, que não incluem sopa e fruta. Tendo como termo de comparação as cantinas universitárias de Coimbra, parecem caras. Mas se compararmos com os preços praticados noutras cantinas (ex: Lisboa) os preços correspondem à realidade. E esta é uma excelente oportunidade de fazer refeições equilibradas, havendo até um menu vegetariano.

Existem, também, mais 3 restaurantes dentro e ao pé do recinto: um vegetariano e outros dois de fast food. Igualmente a preços razoáveis, à excepção do vegetariano, que pode sair caro, caso se pretenda sobremesa ou sumos naturais.

A organização montou, ainda um mini-mercado na zona do parque de campismo. Ideal para tomar o pequeno-almoço a preços razoáveis (por 2€ compramos pão, queijo, fiambre e iogurtes, por exemplo).

Como se pode concluir facilmente, não há falta de alternativas para comer no festival.

 

O Conceito

No andanças a ecologia é levada a sério. E não se trata apenas de incluir pontos de separação de lixo em todo o festival. Tudo é pensado para gastar e sujar o mínimo. Não há copos, nem pratos, nem talheres de plástico (política de “descartáveis zero”). No início do festival compra-se (ou aluga-se, solução pensada para os mais frugais) uma caneca de lata que é onde são servidas todas as bebidas que se consomem no festival. Isto significa que não há toneladas de copos de plástico no chão, nem para reciclar. Caso se traga prato e talheres de casa usufruímos, ainda, de um desconto de 0,50€ em cada refeição. Quem não traz é obrigado a alugar, sendo devolvida no fim a caução.

© Manan Xuxudi

A única maneira que existe de aceder a um computador é pedalando numa bicicleta (parece óbvio que isto já é um bocado exagerado – nem área de imprensa existe). Há, no entanto, uma zona para carregar telemóveis e dezenas de tomadas para outras necessidades, já que os headquarters do festival são numa escola.

Escusado será dizer que este cuidado torna as pessoas conscientes, razão pela qual é raro o lixo que se vê no chão. Esta estratégia merece, definitivamente, um aplauso.

 

As Actividades

O Andanças é um acontecimento surpreendente, onde se encontra todo o tipo de pessoas: músicos, construtores de instrumentos, contadores de histórias, pintores, etc. As actividades estão a cargo deles. Há fogueiras e histórias, workshops de construção de instrumentos, aulas de instrumentos, actividades de pintura, etc. Como se já não bastasse, o festival localiza-se ao pé da Serra. O rio que a atravessa vai formando pequenos lagos no seu leito, que na região são denominados como “poços”. Enchem facilmente, mas há vários, basta procurar um que esteja mais vazio. A água é gelada, mas sabe bem, tendo em conta o calor que se faz sentir.  Existem ainda as piscinas do Pisão, e autocarros para transportar as pessoas para lá. Fazem-se ainda caminhadas pela Serra. Enfim, há tanta coisa para fazer que é impossível estar parado. Note-se que estas actividades servem, por exemplo, para quem não está muito interessado em dançar, já que é à tarde que se aprende. Para relaxar, pode fazer yoga, terapias do abraço e do riso ou o que bem lhe apetecer, já que tudo é mais ou menos tolerado e permitido (garantimos que não é difícil arranjar quem o acompanhe, seja em que actividade for).  

 © Blue.Trek 

As Pessoas

O Andanças é, para alem de um festival multicultural, um festival em que se juntam muitas pessoas diferentes (desde banqueiros a artistas de rua). Mas há uma coisa notória: todas estão lá para o mesmo, que é… diversão. Não há pessoas hostis; há apenas uma dose de tranquilidade que parece afectar todas as pessoas que estão no festival. Durante uma semana tudo é feito com boa disposição, disponibilidade e vontade de ajudar. Mesmo que não se ganhe nada com isso. No entanto, é óbvio que as coisas funcionam e correm melhor. Durante uma semana conhecemos dezenas de pessoas, e essas dezenas de pessoas conhecem-nos a nós. Conversa-se sobre música, sobre o festival, sobre política (é óbvio que o Berloque tinha que aproveitar a ocasião para alguma propaganda), sobre o que era antes e o que é hoje.

Se se procura paz, este é o sítio certo. Não se espante se ao caminhar pelo recinto receber abraços de pessoas desconhecidas (a desvantagem é que tanto pode calhar uma mulher sensual como um obeso de higiene duvidosa).

 ©Ruddrud

Pontos Negativos

Não há muito a apontar, honestamente. A única coisa que talvez pudesse ser revista é a obsessão de controlo dos seguranças (quase que arrancam as pulseiras à entrada e não permitem o mínimo ruído fora de horas, nem que se esteja a 500m das tendas. Num festival em que dezenas de pessoas andam com instrumentos atrás, isto é difícil de cumprir, ainda mais porque estes parecem ser os únicos que se importam). Pessoas que foram nas edições anteriores dizem que este ano o controlo foi exagerado e, na minha opinião, desproporcionado, já que não se parece justificar. A organização deve ter as suas razões, penso eu.

 

A minha única preocupação com este festival é que se torne um Sudoeste, com o pior que isto trás: multidões, confusão, filas e problemas. Enquanto se mantiver como está, é sem dúvida uma experiência a repetir.

De Volta

Agosto 15, 2008

Não eu, pelo menos por enquanto. Luís M. Jorge voltou a actualizar o seu blog. Uma boa maneira de compensar a baixa do Filipe N. Vicente. Esperemos que desta vez seja de vez!

On Hiatus

Agosto 3, 2008

Até pelo menos dia 10 de Agosto, dois ilustres membros deste blog (eu e o João Torgal, em serviço) andarão por aqui. Estão todos convidados. Boas férias!

Leitura verdadeiramente obrigatória

Agosto 3, 2008

Recebi o seguinte e-mail, que agora partilho convosco:

*(Esta carta foi direccionada ao banco BES, porém devido à criatividade com que foi redigida, deveria ser direccionada a todas as instituições financeiras.)*
 
 Exmos. Senhores Administradores do BES
 
 Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa
mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. Rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
 
 Funcionaria desta forma: todos os senhores e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os  proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer outro produto adquirido (um pão, um remédio, uns litro de combustível, etc.) o usuário  pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.
 

Que tal?
 
 Pois, ontem saí do BES com a certeza que os senhores concordariam com tais  taxas. Por uma questão de equidade e honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples.
 
 *Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de  embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e qualquer outro serviço. Além disso impõe-se taxas de. Uma ‘taxa de acesso ao pão’, outra ‘taxa por guardar pão quente’ e ainda uma ‘taxa de abertura da padaria’. Tudo com  muita cordialidade e muito profissionalismo, claro. *
 
 Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.
 
 *Financiei um carro, ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os  senhores cobram-me preços de mercado, assim como o padeiro cobra-me o preço de mercado pelo pão. *
 
 *Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri.*
 
 *Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobram-me uma ‘taxa de abertura de crédito’-equivalente àquela hipotética ‘taxa de acesso ao pão’, que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar *
 
 Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, *os senhores cobram-me uma ‘taxa de abertura de conta’. *
 
 *Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa ‘taxa de abertura de conta’ se assemelharia a uma ‘taxa de abertura de padaria’, pois só é possível fazer negócios com o padeiro,  depois de abrir a padaria. *
 
 Antigamente os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como ’Papagaios’. Para gerir o ‘papagaio’, alguns gerentes sem escrúpulos cobravam ‘por fora’, o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco  resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos. Agora, ao contrário de ’por fora’ temos muitos ‘por dentro’.
 
 *Pedi um extracto da minha conta – um único extracto no mês – os senhores  cobram-me uma taxa de 1 EUR. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR ‘para manutenção da conta’ – semelhante àquela ‘taxa de existência da padaria na esquina da rua’. *
 
 *A surpresa não acabou. Descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre – uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo.  Semelhante àquela ‘taxa por guardar o pão quente’. *
 
 *Mas os senhores são insaciáveis.*
 
 *A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer.
 
 *Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de v/. Banco. *
 
 *Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?*
 
 Depois de eu pagar as taxas correspondentes talvez os senhores me respondam  informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc., etc., etc*. **e que apesar de lamentarem muito e de nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto pela lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal.* Sei disso, como sei  também que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.
 
 *Sei que são legais, mas também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma. *