Um dos fenómenos mais curiosos da Geopolítica - e cujo crescimento é, em grande parte, fruto das novas tecnologias - é a a entrada de um novo factor na equação de definição de Potência. Se no passado o debate se colocava entre o poder económico e politico (ou até social), hoje qualquer pessoa identifica, inconscientemente, os países mais poderosos com aqueles que mais frequentemente vê no telejornal ou nos jornais.
O primeiro e mais duradouro exemplo deste efeito - ainda em escala reduzida - foi Cuba, cujo mediatismo, qual número de magia, fazia esquecer os inúmeros problemas económico-sociais da ilha.
Actualmente, os dois exemplos paradigmáticos são o Irão e a Venezuela. O primeiro - um país cuja riqueza advém unicamente dos recursos naturais abundantes - apresenta uma das sociedades mais primárias do mundo e é liderado por uma personagem indescritível (gozada pelos próprios conterrâneos, o que, estando em causa o Irão, é dizer muito). Já a Venezuela, tem como ícone (é na verdade o que ele é, em sentido lato) um presidente que dispara em todas as direcções, numa desesperada tentativa de se agigantar em relação aos vizinhos sul-americanos e, pasme-se, aos EUA (que, não fora o petróleo e o gás, não lhe ligava “peva”). Um dos países com que Chavez se travou de razões recentemente foi a Colômbia. Evidentemente que a “birra” não durou muito, pois estes senhores têm um dos maiores exércitos da América do Sul e Chavez é pespineta mas está longe de ser parvo. A estucada final foi a recente libertação de Ingrid Betancourt, para a qual o sempre tão solícito presidente venezuelano contribuiu zero, ficando - em bom português - a ver navios.
Julho 18, 2008 às 2:50 am
Um bem haja, primeiro que tudo, já não visitava este blog há algum tempo (na verdade, este e qualquer outro blog).
A ideia das potências mediáticas, de um ponto de vista sociológico, é interessante de se analisar. A ideia de como as nações podem usar o seu próprio mediatismo (seja boa ou má publicidade) para seu próprio proveito (leia-se, procura de poder) é assunto para dar pano para mangas como se costuma dizer.
A escolha dos exemplos é que, a bem da verdade, podia ter sido melhor, na minha opinião claro. Então o Irão tem das sociedades mais primárias do mundo? Devemos ter concepções diferentes de analisar sociedades, porque o Irão tem das sociedades mais abertas e estáveis da região (ou é apenas o laicismo do Estado que distingue uma sociedade primitiva de outra moderna?) e é talvez a nação com um tipo de organização social mais parecido com a democracia e é o país mais activo na região a promover o combate à “epidemia do século”, o HIV! E quanto à sua riqueza advir unicamente de recursos naturais abundantes, podes dizer o mesmo de todos os países do Médio Oriente e da Península Arábica, porque eles também não têm muitas mais hipóteses! E exemplos como estes posso dar mais. O índice de desenvolvimento humano no Irão é superior ao de países como o Paraguai, a África do Sul, a Indonésia ou o Egipto… Mas não quero fugir ao cerne desta questão:
Seria sim interessante analisar como certos países usam a publicidade para seu proveito. Exemplos: A Coreia do Norte sempre tentou através de ameaças mediáticas e nucleares entrar no grupo dos poderosos, mas nunca surtiu grande efeito; já Moçambique e Sri Lanka - ambos com diferentes métodos - conseguiram ganhar a empatia do mundo e receber avultados investimentos financeiros internacionais para se desenvolverem, apesar da corrupção latente que grassa em ambos os países. E se no Sri Lanka a razão do estado de graça pode ter sido politica(ligação histórica com o Reino Unido e terem no território os Tigres Tamil, esses safados), em Moçambique é mais complicado de perceber o porquê de uns conseguiram tanto e outros tão pouco, sendo que o mediatismo tem que ter influência nisto: a forma como a questão da corrupção é tratada e vista (ou não tratada e vista) de país para país é quase surreal! Será que a corrupção na Venezuela é pior que em Moçambique ou Angola, embora no terreno sejam similares em muitos aspectos?
E para finalizar, que o comentário já vai longo, e que tal analisar as potências não-mediáticas, aquelas que ganham mais nos bastidores? Vem-me outra vez o Sri Lanka à cabeça. Mas essa é outra discussão com pano para mangas…
Um bem haja
Alexandre Carvalho
Julho 19, 2008 às 1:36 pm
Antes de mais, bem vindo!
Visto que concordamos em relação à lógica da “teoria”, vamos lá dissecar os pormenores:
1.”Devemos ter concepções diferentes de analisar sociedades, porque o Irão tem das sociedades mais abertas e estáveis da região”
Não sendo, de modo algum, grande conhecedor das sociedades árabes e, por conseguinte, da do Irão, havia alguns exemplos que poderia citar. Escolho este: um rapaz que há uns anos cometeu o “crime atroz” de se deixar fotografar para a capa da The Economist, foi preso e torturado - a um nível que torna Guantanamo “um menino” -, conseguindo escapar para os EUA recentemente. Como vez, um belo exemplo de uma sociedade avançada. Poderia ainda falar do Aiahtolah (não deve ser assim que se escreve)…
2.”E quanto à sua riqueza advir unicamente de recursos naturais abundantes, podes dizer o mesmo de todos os países do Médio Oriente e da Península Arábica,”
Pois claro que posso dizer! E digo-o, eu e toda a gente, porque é, aliás, óbvio. Referi o Irão porque, de todos estes países - e não sendo aquele mais “abonado” (ou talvez por isso) - é aquele que mais se faz “notar”, encaixando, consequentemente, na linha do post.
3. Quanto à Coreia do Norte, não a referi porque, recentemente, acordou com os EUA o desmantelamento do armamento nuclear, renunciando, portanto, em parte, a esta táctica. Certamente que ao acordo não foram alheias certas “compensações” americanas, mas o que interessa para o caso é que a Coreia do Norte, em tempos um país paradigmático deste mediatismo, parece - pelo menos - ter deixado de o ser.
Já quanto aos outros países, confesso a minha ignorância, só posso falar do Sri Lanka. E quanto a este, pelo menos no último par de anos, não pode ser comparado o uso propositado do mediatismo (até por parte dos tigres tamil) àquele que o Irão e a Venezuela fazem.
Finalmente, as “potências de bastidores” é um tema interessante. Aliás, passou-me pela cabeça quando escrevia o post. Lembro-me de alguns exemplos: vietname, taiwan, canadá e austrália…