
iPhone 3G: $199 ou 610€?
Não vale a pena alongar-me muito neste artigo, pelo menos antes de dizer que o novo iPhone 3G é um bom telefone. Isso é inquestionável. Vejamos: um telefone com touch screen, Wifi, 3G, 8 ou 16Gb de memória, GPS, tudo condensado numa caixa de poucos milímetros de espessura… é impossível afirmar que se trata de um mau aparelho (é aqui que acaba a discussão com os Apple haters, que são casos patológicos ainda mais interessantes, a meu ver, que os Apple fan boys). Caso fosse oferecido (e nem era preciso tanto, como vou explicar à frente) seria neste momento o meu telefone. Mas não é, e tão cedo não vai ser. Porquê?
Não é novidade nenhuma que a Apple vive de uma máquina de marketing que lhe permite criar uma hype anómala em torno dos seus produtos (quando isso não é possível, as empresas com quem contrata encarregam-se de o gerar, como o fez a Vodafone, que à falta de habitantes à porta das lojas decidiu organizar um evento para os oferecer). As keynotes esgotam os bilhetes semanas antes, as pessoas avolumam-se à porta das lojas à meia noite, e os sites da especialidade dedicam dezenas de rumores e especulações aos produtos da marca. No entanto, há uma coisa que costuma acontecer com estes produtos que não acontece com este. O que se vê na apresentação é o que se obtém na realidade. Anunciam-se computadores ao preço x, downloads de música ou software ao preço y e sabemos que quando chegar às prateleiras (virtuais, já em bastantes produtos) obteremos aquilo que foi anunciado ao preço anunciado. Ora, o iPhone falha neste aspecto.
Quando foi anunciado há semanas atrás, o slogan era este: ”twice as fast, half the price“. Twice as fast por causa da substituição do obsoleto EDGE pelas redes 3G, half the price porque desceria para 250€. Para quem já estivesse interessado no artigo, nada melhor do que ouvir isto. Principalmente porque ninguém falou naquilo que afasta as pessoas do iPhone como o diabo da cruz: em contratos. Que fazem com que o iPhone não só não esteja a metade do preço, como se apresente ainda mais limitado pelas operadoras.
Não consigo encontrar o nº de pré-registos recebidos pelas operadoras que comercializam o produto em Portugal (a Optimus e a Vodafone: a TMN encontra-se em negociações), mas o nº já me passou à frente e sei que pelo menos no caso da primeira ultrapassou os 5000 pré-registos. Mas a verdade é que (como me pôde confirmar o vendedor) nem 1/10 das pessoas veio buscar o telefone. Os preços lançados tornam-no um produto incomportável para o bolso português e caro demais para aquilo que é oferecido (voltaremos a este ponto). Mas nenhuma das empresas referidas é estúpida, e sabe perfeitamente que mesmo a este preço haverá quem compre o telefone: sobretudo quem procura o hype, e não o melhor pelo menor preço.
O iPhone é comercializado a 500€ ou a 600€, conforme se opte pelo modelo de 8Gb ou pelo de 16Gb. Com a primeira versão do telefone era possível comprá-lo a estes preços desbloqueado; agora nem essa possibilidade é oferecida, sendo obrigatória a vinculação às operadoras por 24 meses. Caso não se esteja interessado em pagar este valor, há a possibilidade de subscrever um dos planos (limito-me a falar dos da Vodafone, os únicos que conheço em detalhe). O mais barato torna, à primeira vista, o iPhone em half the price (249€), sendo obrigatória uma mensalidade de 15€ convertíveis em minutos de chamadas, mensagens e, finalmente, 250mb de dados para usar, em locais não cobertos por WiFi, as funcionalidades do iPhone que dependam de uma ligação de dados.
Não parece, de todo, caro. 250€ é um preço razoável por um telefone que não dispõe de um sistema de gestão de ficheiros, de partilha Bluetooth (as funcionalidades bluetooth limitam-se ao auricular), de MMS e videochamada, e que apenas inclui uma câmera de 2MP (perfeitamente banal, tendo em conta as câmeras que rivais como a Nokia já disponibilizam em todos os telemóveis deste preço), mas que dispõe de todas as funcionalidades que o iPhone dispõe, que são, objectivamente, muitas.
Mas acontece que não nos querem vender o telefone a 250€. Independentemente do plano escolhido, uma taxa misteriosa de 15€ é sempre acrescentada, independentemente do plano escolhido (o mínimo começa, portanto, nos 30€), e estamos obrigados a pagá-la durante 24 meses. O telefone que sairia a 250€ sai agora a pelo menos 610€. É como se estivéssemos a pagar o telefone não só ao preço original (lá se vai o half the price) como ainda com juros. Como se de um crédito se tratasse. Mesmo os planos de dados não são muito vantajosos: para um telefone que vive da Internet, 250mb esgotam-se com bastante facilidade (muitas operadoras europeias oferecem, a este preço, tráfego ilimitado).
A bottom line é esta: este produto não vale o preço que é cobrado por ele. Os telefones que estão ao mesmo preço pecam em design, mas oferecem tudo o que o iPhone oferece (mais o que não oferece).
Já circulam pela Internet petições para baixar o preço deste produto. Nada mais absurdo. A única petição que resulta contra empresas desta dimensão é deixar o produto a ganhar pó nas estantes. Quando a hype terminar, não haverá quem compre este produto a este preço. Ficamos à espera.
Nota: não devia, sequer, ter de dizer isto, mas não sou um Apple hater. Pelo contrário. Utilizo o Mac OS X há 3 anos (e recomendo) e já tive vários iPods (todos eles valeram cada cêntimo). Tentei fazer uma análise o mais objectiva possível. Comentários a este post que não contribuam para o debate serão apagados. Obrigado.