Arquivo de Abril, 2008

Alguma da melhor colheita musical portuguesa do início de 2008

Abril 28, 2008
A Naifa – Uma Inocente
 
Inclinação para o Mal 

Depois de 2 albuns aclamadíssimos pela crítica, como o foram Canções Subterrâneas de 2004 e 3 Minutos Antes de a Maré Encher de 2006, que continham pérolas como “Música”, “Metereológica”, “Monotone”, “Señoritas” ou ” A Verdade apanha-se com enganos”, 2008 marca o regresso aos discos d’A Naifa com este Uma Inocente Inclinação para o Mal, que afirma o grupo definitivamente como um dos porta-estandartes da modernização e actualização do fado no período contemporâneo. É aliás esse facto que abre caminho para uma das grandes contradições do disco: se por um lado este pode ser considerado como o registo da banda mais próximo do fado, pela estética e construção das músicas ou pelo peso mais acentuado da guitarra portuguesa de Luís Varatojo, por outro é muito redutor considerar isto como um album de fado, não só porque seria menosprezar o papel fundamental da secção rítmica que subverte a lógica do estilo, em particular o baixo pulsante de João Aguardela, mas também porque não faz sentido delimitar esta obra maior a um só estilo musical. Outra das diferenças deste album em relação aos anteriores é a existência considerável de um elevado leque de temas em registo intimista, como “Na Página seguinte”, “Um Rapaz Mal Desenhado”, “Uma Ligeira Indisposição”ou “Apenas Durmo Mal” (aquele final em loop fica-nos irremediavelmente na memória), onde estão alguns dos melhores momentos musicais do disco e onde a voz de Mitó brilha intensamente.

No plano lírico, ao contrário do que sucedeu com os albuns anteriores, em que deram projecção a um conjunto vasto de novos poetas nacionais, em Uma Inocente Inclinação para o Mal as letras foram todas escritas por Maria Rodrigues Teixeira, que conheceu os elementos da banda após um concerto em Tondela, tendo-se depois estabelecido esta parceria. As letras, aparentemente ingénuas, inocentes e quase sem sentido, escondem um carácter negro, alguma ironia e um tom de sátira social (“vivo do que me dão/ nunca falto às aulas de esgrima/ e todos os dias agrdeço a deus/ esta depressão que me anima” em “Esta depressão que me anima”, por exemplo).

Em suma, A Naifa ao seu 3º album elevou ainda mais a parada, construindo aquele que é, para mim e desde já, um dos grandes discos nacionais de 2008.

 

Nota: Tive o prazer de assistir ao primeiro concerto de apresentação deste album, realizado no Museu dos Trasportes, em Coimbra, dia 3 de Abril. Foi, na minha perspectiva, atendendo às características mais intimistas do novo album e ao facto de se tratar de um espaço pequeno, o sítio ideal para este concerto. Durante pouco mais de uma hora (uma das poucas coisas negativas do espectáculo, o facto de ter sido tão curto) deram um óptimo concerto, com pouca interactividade com o público (quando a música fala por si, isso é quase irrelevante), mas que, contudo, terminou em apoteose com a vibrante versão da “Desfolhada” de Simone de Oliveira.

 

Kumpania Algazarra -

 Kumpania Algazarra

Como resistir, imóvel e indiferente, ao ska de “Skabicine”, ao reggae balcanizado de “Gipsy Reggae”, aos ritmos latinos, quase cubanos, de “Donde la vida va”, à mistura de música dos balcãs com elementos portugueses em “Oh Cidade” ou à ode contagiante a Mary Poppins em “Supercali”?

Depois de terem dado nas vistas no EP Kumpania Algazarra de 2005 e, essencialmente, na colaboração com os também indescritíveis Blasted Mechanism, em “Battle of Tribes” do seu último de originais Sound in Light, chega agora às lojas este primeiro longa-duração de originais da Kumpania Algazarra, também homónimo. Vindos de Sintra, este enorme colectivo, constituído por cerca de 10 elementos e onde predominam instrumentos de sopro como saxofone, clarinete, trombone ou flautas, afirma-se definitivamente neste disco como uma verdadeira banda de música do Mundo, no que essa expressão pode ter de mais verdadeiro, dado que misturam diversos estilos musicais e elementos de diversas culturas provenientes de pontos geográficos completamente distintos e interpretam temas em diversas linguas como português, francês, iglês ou espanhol.

Aqui ficam alguns dos termos que poderão servir para caracterizar na perfeição este projecto: festa, folia, farra, energia, diversão, vibração, frenesim… Para poder comprovar tudo isto de forma ainda mais acentuada só falta ouvi-los naquele que deverá ser, com certeza, o habitat por excelência da banda, ou seja, o palco, seja ele onde for.

Lapidar

Abril 28, 2008

“Quem é que o escreveu por si, Geldolf?”, perguntou George Bush ao defensor do continente africano, quando este lhe ofereceu o livro que acabara de publicar.

“Quem é que o vai ler por si, senhor Presidente?”, respondeu Geldolf

in Courrier Internacional

Humor em Sentido

Abril 28, 2008

A total ausência de humor (descontando, talvez, o brejeiro) é uma das mais curiosas características da política portuguesa.

É sabido que há políticos com piada, uns até contam, diz-se, anedotas no “back stage”. Quando actuam em funções oficiais, porém, tudo o que se vê é um ar profundamente sisudo, comum a todos, de todos os quadrantes.

A única explicação que encontro é o receio. Provavelmente, o político, com medo da reacção popular (mas adepta da discrição do Estado Novo, de Cavaco e de Sócrates), evita qualquer lampejo de humor, em detrimento de palavras sérias e firmes.

Honra lhe seja feita, uma das únicas e saudáveis excepções a esta regra é Mário Soares.

O bluff de Jardim

Abril 28, 2008

Se as directas do PSD fossem uma série de televisão, o meu candidato seria, sem qualquer tipo de dúvida, Alberto João Jardim.

Se tivesse a certeza que não ganharia, seria, ainda, o meu candidato.

Infelizmente, nada disto é garantido, pelo que espero que não avance. E não o fará, estou convicto. Jardim está nas suas sete quintas. Avança, recua, dribla, diz isto para amanhã dizer aquilo. Bate nuns, bate noutros. Está numa posição bastante agradável, pois todos o ouvem e pode ir-se divertindo com os fait-divers da vida interna do PSD para depois voltar, de barriga cheia, à “paz” madeirense e descansar, fumando o seu profundamente “pensativo” charuto.

É minha convicção que, a dar o “salto” para o continente, Alberto João Jardim já o teria feito, à imagem de Mota Amaral. Tê-lo-ia feito quando ainda não estava “colado” à imagem de político regional, e pior, político regional da Madeira.

Por estes dois motivos, penso que, à última, vai deixar cair a hipótese da sua candidatura, e deixar, como sempre, as quezílias do PSD entregues aos “bastardos do continente” (para manter a seriedade deste Blog abstenho-me de continuar a citação)

O paradoxo portiano

Abril 28, 2008

Numa das raras vezes em que o meu pensamento se debruça sobre a realidade desse pujante partido que é o PP, assaltou-me uma ideia: Paradoxalmente, e ao contrário do que se passa no PSD, as coisas para o lado dos populares têm estado bastante calmas.

Ora, fazendo um paralelismo com os vizinhos mais moderados, não me parece que haja razões para assim ser. Tanto num partido como no outro, uma direcção, representando a linha derrotada nas eleições, tomou a outra de assalto sob o pretexto de esta última ter feito ainda pior que a primeira. Em ambos os partidos veio a provar-se que a nova direcção (ou velha, dependendo do ponto de vista) não fez melhor que a anterior.

Consequentemente, no caso do PSD, pouco (para não dizer nada) demorou para que muitos se insurgissem, facto que teve como derradeiro efeito a queda natural (ou não) da direcção eleita.

Curioso facto, no caso do PP, a vida parece, ironicamente, fluir com tranquilidade, não obstante os parcos resultados alcançados que, além do mais, estão longe de suplantar os da anterior direcção.

Será Portas, ao invés de Menezes e Santana, tão “eucalíptico” que consegue eficazmente secar tudo à sua volta? Se não é, parece.

Para que não restem dúvidas

Abril 26, 2008

O que levantou alguma desconfiança dos portugueses em relação à nova moeda (Euro) foi a sensação de que poderia ter causado inflação por causa dos arredondamentos. Uma situação que podera ter sido justificada pelo facto de bens consumidos com maior frequência terem tido um aumento de preços. Na prática, trata-se de uma divergência entre inflação e percepção de inflação. No global, o Banco de Portugal estimou que a introdução do Euro tenha agravado a inflação em 0.2 pontos percentuais no primeiro trimestre de 2002. Num terço dos produtos, os preços ficaram identicos.

Expresso Economia

Preto

Abril 25, 2008

Deve ser a primeira vez que ouço dizer na televisão que alguém é preto.

Foi na Sic Notícias, Vítor Ramalho.

Vá-se lá saber porquê, africano ou, inexplicavelmente, negro é tido como mais politicamente correcto!

Sabia Que?

Abril 23, 2008

“The United States has less than 5 percent of the world’s population. But it has almost a quarter of the world’s prisoners (…)”

in The New York Times

Pragmatismo

Abril 22, 2008

Numa conversa com jornalistas após dois dias de encontro com o Hamas, Jimmy Carter (ex Presidente dos EUA) indicou que o Hamas afirma estar disposto a “aceitar um Estado palestiniano nas fronteiras de 1967 se os palestinianos o aprovarem” e a aceitar “o direito de Israel a viver em paz como um vizinho próximo”.

O Hamas é um movimento que tem nos seus estatutos como objectivo último a aniquilação do Estado de Israel. É o seu mote e é, coerentemente (do mesmo modo que Cunhal era, supostamente, coerente), aquilo por que se tem pautado a sua acção desde sempre e, mais recentemente, na Faixa de Gaza.

Estas declarações, embora posteriormente refreadas pelo líder do movimento, mostram o obvio: O Hamas é pragmático e aceitará, sem problemas, a independência de Israel, desde que Abbas saiba conduzir bem a sua diplomacia.

Abril 21, 2008
A Assembleia Nacional francesa aprovou uma proposta de lei do partido do Governo no sentido de criminalizar o incitamento à anorexia. A esquerda veio dizer que o controlo dos media não podem ser uma forma de combate da doença. Mas o que é certo é que a anorexia e a bulimia são muito mais comuns nos nossos dias do que há umas décadas atrás. E seguindo passos lógicos, a explicação tem de estar relacionada com uma maior coacção por parte de todos no sentido de cada mulher se aproximar da mulher padrão. E a mulher padrão é bela e magra; quem não é bela, tem de ser magra; quem é bela…também tem de ser magra. Não há volta a dar: as revistas de moda, pouco antes do Verão, explicam “como perder os quilos a mais para o seu Verão”, e as revistas do Outono explicam “como perder os quilos que engordou no Verão”, e assim sucessivamente. Não queremos com isto dizer que serão estes os agentes do recentemente criado tipo de crime de incitamento à anorexia. Mas esta visão sazonal claustrofóbica da mulher não ajuda certamente. Como também não ajuda os números acabarem no 40 – se tanto – nas lojas de roupa. Isto para explicar que os media têm a sua quota parte no problema – e quem diz os media diz as empresas que trabalham no mundo da moda, as editoras de revista de moda … Pondo a coisa noutros termos: quem tem comportamentos anoréticos e bulímicos ataca a sua própria integridade física, atingindo-a de forma muitas vezes irreversível. A ordem pública, não obstante não estar nada interessada em assistir a estes ataques, tem de os respeitar, como momentos do livre desenvolvimento de cada um. Mas isso não significa que tenha de respeitar, também, quem potencia, explora, desenvolve esses ataques, ou seja, nós – comunidade – não vemos certamente com bons olhos que se explore patrimonialmente essa autoflagelação. E, por isso, apesar da lei aprovada, hoje, em França, não resolver o problema da anorexia nem da bulimia – e nesse aspecto a esquerda tem obviamente razão – ela é, julgamos nós, o reflexo da nossa vontade em que não se explore a nossa fraqueza com prejuízo para nossa integridade física.